terça-feira, 20 de julho de 2010

O NADA é ETERNO




A vida, tão cheia de sofrimentos, angustias, resignações e perdas. O nascimento é o primeiro passo para o fim, a sentença de morte. A partir daquele dia o que há é uma contagem regressiva, uma trilha que pode ser longa ou extremamente curta. Para piorar o cenário, pode ser interrompida a qualquer instante.
Voce pode ter uma infancia feliz, mas vai chorar e se frustrar demais. Será levado para lugares onde não quer ir, encontrará amigos e logo terá que deixá-los para trás, ou será deixado por eles. Adultos vão gritar, berrar com voce e talvez até lhe bater. Dirão que essas experiencias são necessárias para seu crescimento. Dirão mentiras para se justificarem. E você vai repetí-las.
Depois, seus hormônios vão explodir e você vai se apaixonar por alguem que não vai lhe corresponder. Aí, voce vai pensar que o mundo vai acabar por causa disso. Logo depois perceberá que nada acabou ao redor, mas a sensação vai se repetir várias vezes. Ou então, você se dará muito bem, será a sensação e vai perder a noção do que realmente deveria importar em um relacionamento.
Bem, você vai ouvir falar do bem e do mal. De pessoas boas e más. E vai descobrir que isso é pura bobagem. Quem sabe voce passa a acreditar em alguma religião. Isso é bom, porque a vida terá o sentido que seu pastor, papa etc disser para voce. É bom, é cômodo. Se está ‘escrito’ então é verdade. Não importa quem escreveu nem que o livro seja repleto de coisas que você nunca vai entender. Isso também é ruim, porque você não terá escolhas a fazer.
Após um período em que você vai acreditar em tudo, passará a duvidar de tudo. Vai contestar seus pais, vai querer salvar o mundo ou modificá-lo... mas não saberá em que isso vai mudar as coisas na sua vida. Pior, vai saber que muita gente pensa da mesma forma. Cada um pensando em seu próprio mundo. E vai descobrir que só com muuuuito dinheiro você muda alguma coisa. Mesmo assim, só na aparencia.
Vai ter decepções com amigos, parentes e amores. Vai trabalhar, ter a profissão que escolheu, e descobrir que é feliz... mas que isso é como uma droga, dura alguns segundos apenas.
Vai casar, ter filho, brigar com a mulher, com os filhos. Vai querer outro amor e descobrir que o amor também é simplesmente uma fuga.
Vai sofrer ao olhar para tras (por nostalgia ou pelas chances que perdeu) e para o futuro, que nunca será igual ao que você imaginou.
Verá seus amigos e parentes morrerem e por mais que queira se enganar, em alguns momentos terá a exata noção de que anda numa ponte sobre um abismo, e que a ponte termina em algum lugar, logo ali. Mas, você raramente terá a oportunidade de saber onde é ‘ali’.
E assim, no fim, se envelhecer, ficará doente, indefeso, dependendo de outras pessoas, que você nem lembrará quem são. Seu corpo, tão decantado, será uma máquina velha, cheia de defeitos. Morrerá com suas idéias e seus sonhos (se os realizou, se não, não importará. Não será mais que uma sensação breve) e deixará para outros a explicação do por que voce teve que ir. Ir.. pra onde?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

UM




Um dos temas que está presente todos os dias em qualquer parte do mundo é Deus. As definições que lhe dão são tão simplórias quanto incompreensíveis, dentro do que pode haver de explicação a nivel humano. Aliás, a limitação humana pode ser a chave do problema.
No início, a natureza era Deus. Havia uma coerencia ao se observar o sol, a lua, as estrelas, a chuva, uma manha de primavera. Aí, quando se percebeu que o fogo causava mais estragos que seus concorrentes, passou-se a ter uma certa convicção de que Deus era o fogo. O fogo criador, o fogo inextingível, o fogo que destrói o inimigo, e por aí vai. A violência norteou essa definição e até hoje inlfuencia o planeta.
O problema é que não ter a forma humana causava um certo incômodo. Aí, surgiram as primeiras tradições orais, depois escritas e agora digitadas. Quem escreveu a Bíblia (E FOI UM HUMANO!) decidiu que Deus nos fez à sua imagem e semelhança. Uma idéia que demonstra toda a arrogancia de nossa espécie, pois essa comparação de alguma maneira nos favorece e complica Deus. Além disso, Ele, supostamente, escolheu um povo, contrariando assim a máxima de que Deus não faz distinção entre pessoas.

Seria Ele um negro? Seria branco de olhos azuis? moreno e forte? velho? novo? barbudo? e que diferença isso faria, afinal?

Deus, esse enigma que permeia nossa existência, parece um abismo, tão profundo que dormimos ao cair e temos sonhos sobre o que há lá dentro. Deus É! Ponto.

A evolução só nos trouxe novos problemas, e a questão divina não ficou fora disso. Coloque numa sala um palestino, um israelense, um muçulmano e um inglês e pergunte como é o Deus de cada um. As respostas, provavelmente, terão em comum o fato de Deus ser justo. Deus é justiça. Mas, esse conceito, assim como ‘n' outros, é relativo. É justo que o povo palestino não tenha direito às terras que reinvindicam? É justo que o Irã não possa ter armas nucleares enquanto os EUA podem destruir isso aqui quantas vezes quiserem? É justo que você chegue na padaria cheio de vontade e o padeiro lhe diga que o sonho acabou? Tsc tsc
Por não conseguirmos lidar como as barreiras do dia a dia precisamos de uma zona de conforto, que podemos chamar de Deus. Nele depositamos nossas esperanças, nossos sonhos e nosso marasmo. Esperamos que Ele resolva nossos problemas e sempre apelamos em casos mais difíceis.
O fato é que cada um de nós tem seu Deus, pois Ele é fruto do que aprendemos na vida e das percepções que advem daí. Podemos pensar que Ele é o mesmo para todas as pessoas, desde que não paremos para trocar idéias. Afinal, em qualquer guerra, Deus é chamado para defender esse ou aquele país ao mesmo tempo. Isso prova que existe acepção de pessoas, visto que num confronto muitos morrerão? Mas... com certeza dirão que Deus estava do lado de quem venceu. Pior do que isso é ouvir máximas como: "a voz do povo é a voz de Deus", claro que não é, pois como todo mundo sabe, a voz do povo é a voz da Globo.
Tem um pagode que sugere a possibilidade de Deus estar de saco cheio, porque tudo que acontece por aqui, a gente coloca Ele no meio. Existe sabedoria nesses versos simples.

Fico me perguntando se Deus consegue sentir. Se Ele não nasceu, não cresceu, vive sozinho, nunca teve pais ou irmãos ou amigos, como pode entender as súplicas que lhe são feitas? Deus é Amor, mas, o que é o amor, de que é feito? Medimos o amor e Deus pelos nossos umbigos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

DIGA-ME QUEM ESCALAS QUE TE DIREI QUEM ÉS





COPA DO MUNDO, ah, que saudade! E olha que ainda não acabou, a final é no domingo e hoje ainda é terça-feira, antes da primeira semifinal, entre o improvável Uruguai e a dedicada Holanda, que nos eliminou. Aliás, eliminou o Dunga.
Diferente das outras copas, pouca gente foi de livre e espontânea vontade às ruas, e se não houvesse uma competição patrocinada pela Globo, seria ainda pior. Bem, talvez essa apatia fosse o reflexo perfeito da seleção brasileira. Apesar da união alardeada, do perfeito entrosamento decantado e da disciplina tática por tras dos portões fechados, pouca gente acreditava de fato que seriamos compeões. E quem achava isso tinha que ser avaliado, certamente havia teor alcoolico acima dos niveis normais no organismo. Ou pior, talvez fossem casos de uma doença slogânica chamada: "Sou brasileiro, não desisto nunca!". Algum engraçadinho da publicidade inventou isso e a tv se incumbiu de colocar nos cérebros de milhoes de brasileiros. Parreira tinha razão quando disse que o povo é uma caixa de ressonância.
Como todo ‘bom’ treinador, Dunga tinha suas preferências, suas idiossincrasias e suas maluquices. Ele é um homem obstinado com um sonho: todo grupo tem que parecer um exército numa guerra. E por isso, ele fez Robinho pagar 500 flexões por sorriso que escapasse em alguma entrevista. Deu certo. No último jogo, o garoto das pedaladas virou um monstro e quase engoliu, literalmente, um adversário holandês. Quem tem tv high fulll definition plus master consegiu sentir até o bafo.
Kaká era o centro das atenções da mídia, principalmente do Galvão Bueno, que é uma mídia e resolveu achar que o camisa 10 era muito mais do que um dia foi. Sem contar com o fato de que o atleta estava mal fisicamente, apesar dos desmentidos do médico Runco (repararam como esse médico parece estar sempre bêbado ou com sono?). O mesmo médico que garantiu que Julio Cesar estava perfeito, até que no segundo jogo ele caiu e todo mundo pôde ver que havia uma armadura por baixo da camisa. Claro, era mesmo uma guerra.
Mentiras sinceras, dirão, afinal, se soubéssemos o que já sabíamos mas fingíamos que não percebíamos, seria mais fácil imaginar uma desclassificação antecipada. E como ia ficar o feriado em dia de jogo?
A máxima de todo treinador sensato é: "Vou chamar quem estiver bem no momento!". Tudo bem, concordo... mas por que o sósia do Arnold Sharzenegger chamou o Luis Fabiano? E por que o Galvão Bueno acha que ele é fabuloso? O cara não fazia gol há uns 9 meses. Na Copa, marcou contra Costa do Marfin e o Chile, mas nos jogos de verdade, contra seleçoes completas, Portugal e Holanda, ele não apareceu em campo.
Julio Cesar foi mais um ator de filme patriótico do que jogador, e suas lágrimas, que demoraram a sair, pareciam constar de um script pronto. Nada contra o goleiro, que é mesmo um dos melhores do mundo, mas essa lenga lenga toda não nos levou a nada. E mais, se era um mata-mata, era melhor levar o Bruno.
Agora, falar da seleção e não falar de Felipe Melo, é ligar a tv num domingo e não ver o Silvio Santos. O que foi aquilo? QUEM DISSE QUE ESSE FELIPE MELO é jogador de seleção? Um atleta que tem como hobby colecionar cartões amarelos e vermelhos não é uma opção. Pois bem, esse rapaz consegiu entrar para a história como o grande vilão de 2010, aquele que será sempre lembrado como... como muita coisa impublicável. Qual o prazer que ele sentiu ao pisar no velho holandes, Robben? E quando quase decaptou um jogador de Portugal? E quando resolveu brincar de estátua e não marcou o jogador da Holanda que estava ao seu lado e calmamente se posicionou para marcar o gol da vitória? Não, Felipe Melo virou um fantasma, alguem que vai nos apavorar por muito tempo.
Assim, essa foi a Copa do Maradona, do técnico melequento da Alemanha e sua jovem seleção de ótimos jogadores... e do Dunga, que perdeu a guerra dos seus sonhos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

MARADONA CONTRA O RESTO DO MUNDO



Estava em casa, em frente à tv. Lá, nos recônditos selvagens da Africa, começou a Copa do Mundo. E cada uma é diferente da anterior, não apenas porque o cenário é outro, mas em virtude dos avanços tecnológicos e mudanças provocadas por questões sociais.
Novas câmeras fazem os jogos parecerem videogames, cada gol pode ser observado de vários ângulos e em breve teremos a visão da bola, com uma micro câmera instalada na esfera. E falando em realismo, quem já tem tv LCD em 3D de 42’ vai pensar que está dentro do campo. É o máximo. O proximo passo deve ser a holografia.
Os juizes usam head sets e as bandeirinhas possuem sensores que avisam ao árbitro de alguma irregularidade observada pelo auxiliar. Os estádios construídos e reformados são maravilhosos, ultra modernos. Tem um que possui grama sintética, aprovada pela primeira vez para uma copa do mundo.
Em contrapartida, o futebol, que deveria ser o motivo principal do espetáculo, vai mal das pernas. Além de empates e vitórias magras, o que se viu nessa primeira semana de copa foi a constatação de que houve uma guerra e a Europa venceu. É lógico, no fim das contas, pois os principais jogadores dos paises participantes jogam em clubes no velho mundo, e ao que tudo indica, ao invés de influenciarem uma mudança no modo de jogar, foram influenciados. O resultado é que os países africanos, os asiáticos e a America do Sul mostraram um futebol previsível, burocrático, asséptico e que desperta apenas o sono. Os primeiros jogos foram excelentes para quem sofre de insônia.
Essa globalização da bola foi traduzida em vitoria do Japão contra Camaroes, Coréia do Sul vencendo a Grecia, que derrotou depois a Nigeria. Vimos também a Suiça, país em que o principal esporte é o campeonato de fabricantes de chocolates, vencendo a Espanha, apontada como a grande favorita. Na verdade, apesar de alguns comentários contrários, não acredito que houve zebra alguma até agora, porque nessa homogeinização a mediocridade é geral. Para os africanos, acabou a alegria, o futebol arte, restou a vuvuzela, um artefato mistico tribal, uma espécie de trombeta do apocalipse capaz de deixar surdo quem toca e quem ouve ao mesmo tempo.
Até a velha rivalidade entre os países arrefeceu, afinal, os jogadores de Alemanha, Chile, Camaroes e EUA são amigos, jogam juntos em clubes. E mais, a seleção da Alemanha tem 8 ‘estrangeiros’. Essa onda de naturalização oportunista destrói o velho apelo da competição, que era uma disputa entre nações, uma ‘guerra’ esportiva. Hitler, lá embaixo, deve estar ardendo de raiva e ódio ao ver um jogador negro, Cacau, fazer gols e virar estrela naquele país que seria o símbolo da supremacia loira, alta e de olhos azuis.
Mas nem tudo está perdido, ainda. Maradona, gostem ou não, é a figura da Copa, e sua seleção, um exemplo de que o futebol deve ser diferente, manter características essenciais e ter pelo menos um craque para servir de referencia. Los hermanos em 2010 continuam cabeludos, arrogantes, velozes e com fome de gols.
Antes, ao vermos uma seleção brasileira, exigíamos que ela fosse parecida com a perfeita de 1970 ou a artística de 1982, agora, ao observarmos o técnico Dunga chamando o Escobar (reporter da Globo) de careca pra baixo, o capitão Lucio e a armação tática, ficaríamos satisfeitos se o elenco tivesse um pouco da determinação ofensiva da Argentina. Alguns dirão que o importante é ganhar, mas sou daqueles que acham que não basta ser campeão, tem que parecer campeão.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A SOMBRA E O ESPELHO



Sempre achei que as pessoas valorizavam demais minhas crônicas, mas nunca reclamei disso, afinal de contas, essa admiração passou a se transformar em dinheiro, fama, etc. Tudo bem, isso não traz felicidade, mas serve para comprar um monte de coisa.
Bem, o fato é que a minha exposição em um número cada vez maior de impressos e na internet propiciou uma vida que inclui visitas a diversos países, conhecer pessoas incríveis, boas mulheres e mulheres boas.
Outro dia, estava autografando meu trabalho mais recente, um livro de crônicas sobre as impossibilidades do poder. Uma análise pretensamente divertida sobre ditadores latino americanos e torneiros mecânicos. Sucesso de crítica e público, fico até com vergonha, às vezes. Mas, lá estava eu, tirando fotos com pessoas sorridentes, algumas nunca tinham lido nada meu, estava nos olhos. Tapinhas nas costas, uma senhora apertou minhas bochechas, um garoto puxou a mãe dizendo que aquela fila era muito grande e chata e boba, uma garota veio com livro de poesia para eu dar meu aval.... tudo previsível. Aí, tive a brilhante idéia de fazer uma pesquisa no boca a boca, para descobrir qual a crônica de que mais gostavam. Naturalmente, pelas vendas, seriam diversas, de épocas diferentes. Entretanto, algo estranho aconteceu. Fiz a pergunta a mais de cinquenta pessoas que me pediam para autografar o livro. Para minha surpresa, cerca de 90% disseram que adoravam a mesma crônica: "A revelação".
Vocês podem imaginar como um autor fica satisfeito ao perceber que fez uma obra-prima. E olha que os adjetivos eram de ‘sensacional’ para cima. Uma senhora chegou a dizer que preferia inclusive ler a versão em francês. Não havia dúvida, ‘A Revelação’ era um sucesso absoluto. E o melhor é que até adolescentes que estavam na livraria também citaram a crônica como a melhor coisa que leram. Dupla felicidade, adolescentes que leêm... e gostam de mim. Mas, pera aí, pensei. Não sei quantos elogios depois, me toquei de que eu nunca escrevi uma crônica chamada ‘A Revelação’, e nunca estive na França.
Podemos explicar Hugo Chavez e até como a China consegue crescer enquanto o resto do mundo mergulha numa crise econômica sem precedentes, mas algo desse tipo, não. Entrei no google e descobri que ‘minha’ crônica era um sucesso mundial, citada em inúmeros sites e serviu de base para teses e debates acadêmicos. A cada toque no teclado a coisa ficava mais estranha. ‘A Revelação’ era uma das crônicas de uma coletânea chamada SINAIS. E nos sites havia minha foto.
Eu já havia escrito sobre esses seres que preferem viver à sombra de outros a ousar e expor seus trabalhos. Bem, agora eu também era vítima dessa popularidade involuntária, e o pior é que o texto tinha mesmo algo de mim. Eu poderia ter escrito algo assim, mas... não escrevi.
Entrei em contato com minha assessoria e descobri que o tal livro estava esgotado. O departamento jurídico de minha editora começou a se movimentar, afinal, eu era exclusivo, e a coletânea saiu por uma tal de Infinitus. Aquilo se tornaria um caso de polícia, com certeza. Passara da homenagem à falsidade ideológica. O irônico era saber, através de uma pesquisa encomendada, que grande parte do meu sucesso vinha dessa farsa. As pessoas liam SINAIS e corriam atrás de outros trabalhos. Um crítico disse que sem essa coletânea, por causa especificamente de ‘A Revelação’, minha carreira talvez nem tivesse existido.
Aquela história começou a me incomodar e tirar noites de sono. Tornara-se uma questão de honra descobrir o surrupiador, o esperto, o cara que sabe copiar. No entanto, de uma maneira canhestra eu devia a esse homem (podia ser uma mulher) minha fama. Era incômodo pensar por que essa figura se mantinha oculta. Ele ganhara muito dinheiro às minhas custas com aquele livro. Por que não se lançou no mercado editorial? Claro que ele sabia do sucesso. Ou não? E... se fosse um psicopata?
Bem, o que começou com um aparente engano ganhou proporções quase cinematográficas. A cada descoberta o mistério aumentava. Não havia registro da tal editora. As lojas que comercializaram o livro simplesmente não tinham registro da obra em lugar algum, mas funcionários lembravam perfeitamente de ter visto o livro nas prateleiras. A gerente de uma megastore na zona sul verificou, inclusive, da tarde de autógrafo que aconteceu há cerca de cinco anos. Isso era um absurdo total. O impostor esteve lá, se passou por mim. Ela entrou nos arquivos de eventos. Havia algumas fotos, mas tiradas no meio de um tumulto. Nossa, eu, quer dizer, ele, chamou muito a atenção. Dava pra me ver, vê-lo, de relance apenas. A gerente riu e perguntou se eu não lembrava daquele dia. Eu disse que era impossível esquecer (se tivesse acontecido, claro).
Bem, depois que um neoliberal sumiu com o metalurgico Lula e assumiu suas feições, tornando-se presidente da república, pensei, tô ferrado! Claro, era só uma questão de tempo até que o homem viesse atrás de mim. Ele parecia comigo, escrevia no meu estilo, e... era melhor do que eu. Pensei também que talvez eu devesse encontrá-lo antes e acabar com ele, afinal, tudo que eu era se devia a um engano monstruoso. Ele, e não eu, escreveu as melhores crônicas.
Passei a ficar preocupado, muito preocupado. Era uma questão de honra descobrir o farsante. Mas, no mesmo momento, pensei que se o caso fosse revelado, metade, ou mais, da minha fama iria para o brejo, onde quer que ficasse o brejo. Eu poderia falar com meus amigos, com o Vasconcelos, por exemplo, mas, não, eu poderia perder meus amigos também, pois a maior parte dos atuais, só veio depois da publicação da ‘Revelação’.
De repente, percebi que estava em um beco sem saída, e nesses casos você não tem escolha, tem que agir. Se o fulano resolvesse confessar que havia escrito a cronica tudo estaria terminado, para mim. Seria execrado pela mídia, apareceria em programas sensacionalistas e estaria a um passo do precipício chamado ostracismo. Dizem que quem cai nele jamais volta. Eu não deixaria isso acontecer.
As semanas passaram lentas, até que um belo dia ouvi um anúncio na tv dizendo que eu, ele, estaria no programa Você é o Show. Eu não acreditei. Ele perdera a noção completamente. Como poderia aparecer assim, em público? De qualquer forma, era a chance, isso era o que importava.
Disfarçado, usando um bigode postiço, cabelos pintados e um chapéu panamá, consegui entrar no auditório do programa. Estava lotado. O apresentador chegou rindo, como sempre, rodos eles riem. Fui obrigado a assistir uma infernidade de pseudo atrações. Uma brincadeira com macacos e mulheres vestidas de banana; um anão que nunca se afoga. Se bem que essa foi por pouco. A vida de um artista famoso de quem ninguem se lembrava e uma dança nova, que vai ser o sucesso do proximo carnaval. Era a mesma que eu vi há 15 anos atrás, na Bahia. E, finalmente, chegara a hora.
Meus amigos, temos o prazer de receber em nosso programa o sensacional escritor, e autor de uma das croncias mais aclamadas de todos os tempos, Érico Justissimo. Ele vai nos falar de seu novo livro, Te encontrei, cheio de mistério e humor. Palmas, auditório!
É um prazer estar aqui.
Durante os 40 minutos de entrevista minha vontade foi a de levantar e acusar o impostor. Mas, não. Era isso que ele queria, por isso se expôs. Não tinha medo de mim, pelo contrario. Dali em diante iria se expor para me provocar ao máximo. Imediatamente, veio à cabeça minha cobertura na Barra da Tijuca e o apartamento do Jardim Botanico. NÃO! Gritei interiomente. Tudo acabaria hoje.
Esperei o apresentador se despedir e saí. Eu conhecia bem aquelas instalações, já estivera em programas ali. Tirei o meu disfarce para facilitar o acesso. O impostor usava uma roupa muito parecida com a minha. Camisa azul celeste e calça cinza com meia amarela. Ele copiou tudo. Só as meias eram mais amarelas.
Desci as escadas e esbarrei com o apresentador, Fofão. Ele disse que adorou minhas respostas. Se ele soubesse. Só depois de 10 minutos consegui me desvencilhar. Corri feito um louco e ao chegar ao camarim... estava vazio. A camareira me olhou e perguntou se havia esquecido algo. Eu saí correndo em direção ao estacionamento, no terraço. Lá estava ele, sozinho, entrando no carro. Meu Deus, até o carro era uma cópia do meu.


- Fique aí, mesmo!!! – gritei, com toda a força de meus pulmões! – aos poucos, ele foi virando.
- Nossa, estava demorando. Por alguns segundos achei que não viria. – deu um sorrisinho enigmático.
- Hã? o que quer dizer, impostor? – eu não estava armado, mas ele não sairia dali com vida.
- Quero dizer que você se saiu bem. Consegiu.
- Você é louco! Ganha a vida com meu trabalho, meu nome.
- Hahahahahahahahahaha
- Pare de rir. Caso você não tenha percebido, esse mundo é, sem dúvida alguma, muito pequeno para nós dois. – Caramba, ele era uma cópia perfeita, não apenas parecido comigo.
- Tá, desculpa, desculpa. Não vou mais rir. – ele encostou no carro e abriu sua pasta cheia de papéis. Eram crônicas, reconheci o estilo da escrita manual, que também era idêntica a minha.
- O ... o que é isso?
- Calma, deixa eu ver. Hum... – ele pegou uma das folhas, olhou de cima a baixo. – não sei...
- NÃO SABE O QUÊ?
- Bem... pode ser assim. – pegou uma caneta e começou a rabiscar algo. Escreveu umas tres folhas – abriu um sorriso que quase me enganou. Então, meteu a mão na porta do carro e a abriu. – bem, vamos terminar isso.
- O quê??? – ele tinha uma arma, era isso! Eu tinha que agir depressa. Pulei em cima dele, que tentou se defender. Era como bater em mim mesmo. Ele foi cambaleando e tropeçou em um cano de ferro.
- NÃO!!! – gritei, pois sabia o que ia acontecer em seguida, não tinha como ele segurar em nada. E caiu.
Eu peguei a pasta e os escritos que estavam no banco traseiro do carro e fuji correndo. Estava acabado. Ninguém iria suspeitar de nada.
Já em casa, tomei um banho. Pensei em tudo que havia acontecido, no que a vida havia se tornado em tão pouco tempo. E o público não sabia de nada. Como seria a partir de agora? Liguei a tv e... nada. Bem, eles não iriam noticiar o caso tão depressa. Eu tinha é que pensar em uma estratégia, afinal, encontrariam uma espécie de sósia. Há há há seria até engraçado escrever sobre isso. Olhei a noite lá fora, toda estrelada, quente. Pensei ‘a vida é boa!’. Liguei o som e deixei uma música antiga da Cindy Lauper invadir o ambiente. E assim, pensei que eu acabaria dormindo, deixando os problemas para o dia seguinte. Foi aí que passei o olho na sala, e na mesa estavam minha pasta e também os papéis do falso escritor. Talentoso, sem dúvida. Fiquei curioso, será que entre os papéis existiria outro ‘A Revelação’? levantei e comecei a mexer. Havia contos e cronicas antigas, trabalhos meus. Coisas que eu não havia publicado. E ... um papel meio amassado. Sim, era isso que ele estava escrevendo pouco antes de cair.
‘ ... eu não sabia como terminar a história. A presença dele era incomoda demais. Só que nesse exato momento, ele me olha, ameaçador. Vai me atacar, vai pensar que vou pegar uma arma ou algo assim. Vamos lutar e eu vou cair. A criatura mata o criador, no fim das contas. Ele vai achar estranho, entretanto, o fato de ninguem comentar o incidente. Não haverá corpo para ser achado....
Lendo aqueilo, comecei a suar, mas continuei.
‘Ele vai suar muito e perceber que existe algo além do que esperava. O som de um trovão o assustará e..."’ Há, não teve nenhum.. VRUUUUUUUUUUUUUUUUUM Ai meu Deus, que é isso? Vou fechar essa janela. Deixa ver onde eu parei... aqui ‘irá até a janela para trancá-la e lá vai perceber um vulto atravessando a rua’. Não é possível, como isso está acontecendo? Quem é aquele maluco atravessando a rua nessa chuva? Não, nada disso está acontecendo de verdade. É um sonho. Sim, é isso, um sonho. Eu vou acordar, eu vou acordar, agora!!! Caramba, ainda estou aqui. E aquele cara lá embaixo, com aquela roupa. É o impostor de novo, ele não morreu. Mas, como? É impossível, eu sei que é impossível! Essas coisas não acontecem na vida real. Eu tenho que sair daqui, ele vai se vingar. Droga, por que não consigo parar de ler essa porcaria? ‘... ele não vai obter resposta, a não ser o som de sua própria voz ecoando. Tentará sair pela porta...’ sim, é claro, eu tenho que sair. A chave. Aqui. Pronto, agora é só virar a maçaneta.. ei, que barulho é esse? Deve estar escrito no texto. ‘Um raio riscou o céu naquele instante, depois veio o trovão, depois os passos encharcados, que agora estavam quase à porta. Ele vai se desesperar e correrá até a cozinha para pegar...’ UMA FACA! Eu tenho que me defender desse louco. Como ele consegue fazer isso? Muito bem, agora é só abrir a prota e...Mas...mas... não tem ninguém aqui. Estou ficando louco, deve ser isso. Meu Deus, por quê? Bem, acabou. Eu estou aqui, esse impostor nunca vai pegar meu lugar. Deve ser o estresse, claro que é. Vamos ver como ele termina esse texto insano. "Sentado no sofá, ele pegou não havia ninguem lá embaixo, eu estava me deixando levar por esse monte de besteira que ele escreveu. Vamos ver como esse palhaço termina a história. ‘... pegou as páginas soltas e as leu. Só então percebeu que nunca passou de um personagem criado por mim. Seu mundo começou a desaparecer lentamente ao redor. As paredes, a tv, os móveis. Ele voltará ao limbo, de onde sairá sempre que alguem ler essa cronica".

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

DEUS É O DESTINO


Estava reparando o nosso cotidiano, as ‘estranhas coincidencias’ que existem na vida de cada um de nós... Isso pode ser um ponto de partida para um debate contra o livre-arbítrio. Pensemos: você realmente planejou ficar com a pessoa que está do seu lado? Lembra de como achou esquisito o fato de estar naquele local, naquele exato momento, e que se assim não fosse, vocês nem teriam se olhado? Sim, e da mesma forma você pode ter percebido ‘de repente’ um sentimento por alguem que sempre esteve perto de você e jamais te chamou a atenção... até aquele momento. Isso sem falar em por que você não embarcou naquele avião que caiu, ou aceitou o convite para uma festa onde conheceu pessoas que mudaram seu destino profissional.
Se existisse o livre-arbítrio, só faria sentido se todos tivessem as mesmas chances. Se todos nascessem com as mesmas oportunidades. E quem conhece o continente africano, por exemplo, sabe que não é bem assim.
O que explica o sucesso de uns e o fracasso de outros? A determinação? Hummm... bem, você conhece pessoas determinadas que não vão a lugar algum, certo? Barrichello é determinado! E outras que não estão nem aí para o mundo ao redor e são extremamente bem-sucedidas, certo? Pois é.
Depois de ler bastante e de observar mais ainda, estou cada vez mais convicto de que existe apenas o que podemos chamar de destino. Entendo Deus como O CRIADOR. Ele é o autor desse filme que chamamos vida. E nós somos personagens.... apenas isso. E já é muito. Fomos escolhidos para estar aqui por Ele, só isso já vale.
Ah, vão dizer, então Deus é um injusto, pois faz personagens tristes, com doenças incuráveis, que nascem e morrem em condições miseráveis. E de outro lado, escreve roteiros de felicidade e sucesso para uns poucos. Que justiça há nisso? Ora, essa indagação não se sustenta, pois seria o mesmo que o personagem de Leonardo Di Caprio no filme Titanic questionasse sua morte. O problema com essa suposta justiça é que ela é baseada em conceitos humanos. Deus, não é humano.
Assim, do meu ponto de vista, tudo é perfeitamente explicável e terrivelmente simples. Tudo, todas as nossas emoções e questionamentos, estão no script. Em que familia vamos nascer, de quem vamos gostar, do que vamos gostar. Nosso time do coração, nossa aversão por futebol, nossas certezas e dúvidas. Você olha uma pessoa e diz: ‘não sei por que, mas não fui com a cara desse sujeito’... o Autor tem muito senso de humor.
Vão retrucar: ah, tá, então vou ficar sentado aqui, já que não passo de um personagem! Sim, vai sim, se estiver escrito para você. E se você rir de tudo e seguir seu rumo, ganhar na mega-sena acumulada etc... também isso está escrito.
Provas? Sua vida. Olhe para trás nesse exato instante e reveja grandes momentos, alegres e tristes, lembre-se de como aconteceram. Lembre-se das suas escolhas. Não, não foi mero acaso. Seja você um rico e bem sucedido empresário ou um alguem que perdeu tudo e está sozinho na frente do computador.
Aí, voce pode se questionar, por que não foi escolhido para ser um jogador multimilionário... por que voce, que gosta de escrever, não está na ABL como o Paulo Coelho, que, a rigor, nem escreve bem? A resposta é: por que o Criador fez outro personagem para voce. E tem mais, seja um sucesso ou um fracasso, goste ou não do que tem, você é protagonista.
Deus fez um livro bem especial, onde só tem protagonistas. Uma idéia absolutamente genial, que só podia vir Dele. Aliás, uma idéia tão genial me faz pensar que Ele pode ser uma criança... hummm essa pista tem até na Bíblia, que é um livro interessante.
Mas... se é mesmo assim, você está intrigado, nós não saberíamos disso e não estariamos aqui discutindo a possibilidade. Por que, não? Ele também é irônico.
O Criador fez inumeras religiôes, mas cuidou de deixar claro que o caminho é um só... outra pegadinha. Assim, seja espírita ou adepto de outras linhas que explicam a vida à luz das reencarnações, ou seja um fiel seguidor de outra, que imagina um mundo divino após esse, ou ainda, um muçulmano que tem a certeza de que vai morrer e encontrar 72 virgens esperando por ele, bem... você foi criado para pensar assim. Busca uma verdade, ou duas, ou três, no fundo só para passar o tempo que dura SUA história.

Às vezes, os personagens também enchem linguiça, para depois cair num climax sensacional. Claro, o autor tem que amarrar a trama, e com 7 bilhoes de astros é difícil. Quer dizer, difícil, não, trabalhoso. Por isso, às vezes você tem a percepção de que o tempo passa rápido, e ás vezes, de que tudo está parado demais. Talento... o Criador é Puro Talento. Pois o tempo é sempre o mesmo, a percepção do personagem é que muda.
E o que tem depois que a história acaba?


Rsrsrs quem disse que acaba?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

EI, LEMBRA DE MIM?




Caminhava pela Visconde de Pirajá, na bela e ensolarada Ipanema. Depois de um dia de serviço na agência o que eu mais queria era sossego.
Andando em minha direção vinha uma deusa, cerca 1,80m, olhos azuis, e loira, mas loira mesmo, daquelas que, quando o sol ilumina o rosto você tem certeza de que Afrodite deixou descendentes para mostrar aos pobres mortais o real sentido da beleza. E olha que em Ipanema o que não falta é ninfa, fada e sereia. Mas, aquilo tudo que vinha em minha direção estava além das classificações.
Ela provavelmente não me daria bola, mas olhei assim mesmo, que mal poderia haver? Para minha surpresa, ela não só olhou de volta como abriu o sorriso mais delicioso e convidativo do mundo. Sabe essas horas em que você quer muito que algo aconteça, e quando acontece você não sabe como se portar? Pois é!

- Oooooooi!- disse ela, com uma euforia ímpar.
- Oi - disse eu, gaguejando.
- Não acredito que te encontrei, queria tanto te ver novo! - era a primeira vez que uma escultura me abraçava.
- Ah, puxa, é mesmo, quanto tempo, hein?- eu não podia dizer que não a conhecia, seria um dos daqueles erros imbecis que te acompanham a vida inteira.
E a galera?
- A galera... Ahh, a galera há há há... a galera? Sabia que você ia perguntar. Tá legal! aquela galera tá sempre legal - não ia me entregar fácil. Se eu fazia parte da galera, bem, então eu fazia. - Eu amava a galera.
- Eu tenho saudades da nossa "txurminha", do Fred, da Val, e da Beth, então...
- Puxa, que coincidência, a Beth perguntou por você – era um gancho para manter a conversa. Ora, é claro que a Beth poderia ter perguntado por ela. Quem sabe a Beth não era a melhor amiga?
- Perguntou?
- Há há há, claro. Mandou um beijão.
- Ué, mas ela não morreu?
- Hã?! Ah, é, é... mas foi antes - tem que ter jogo de cintura nessas horas.
- Eu moro aqui agora, nesse prédio, vamos até o meu apartamento? A gente toma um drink. Puxa, estou tão feliz em te ver, tão feliz – se ela estava feliz, o que eu podia dizer???
Claro! Quer dizer, por mim tudo bem.

Eu não sabia seu nome, no entanto, já fazia parte da galera, e era amigo, ou, quem sabe, algo mais caliente, daquele monumento. Morava no 21º andar. Um apartamento grande, bem decorado, com samambaias dispersas pela sala. Eu odeio planta em apartamento, acho que não tem nada a ver...


- Gosta das minha plantinhas?
- Demais essas samambaias! – repensei meus conceitos e segurei o espirro.
- Segui seu conselho.
- Há! rsrsrs eu sabia que você ia acabar entendendo a importância AAAATCHIMMM... desculpa. – Conselho? Que conselho eu dei a ela?

Enquanto sentava no sofá, ela pediu licença para dar um telefonema. Era segredo, pois levou o aparelho para o quarto, no fim do corredor. Aproveitei para ver se alguma coisa na casa daria uma pista do seu nome. Verifiquei na estante. Havia fotos dela em Paris, na Espanha e em praias paradisíacas. Claro que os lugares perdiam longe, ela era a melhor paisagem do mundo. Percebi que a sorte estava do meu lado quando ví uma correspondência na mesa. Diana. Bingo! Era mesmo uma deusa. Então, ela voltou. Com um vinho e duas taças.

- Eu nem acredito que a gente tá de novo assim, tão junto! Há quanto tempo a gente não se fala?- bem, eu tenho 35 anos, pensei.
- Ah, sei lá, para mim o tempo é relativo, acho que nunca saí de perto de você – essa minha frase foi, modéstia à parte, perfeita.

Sei que passamos os próximos minutos tomando vinho e conversando sobre assuntos gerais: filmes, músicas, Barack Obama etc. Além de percorrer todas as curvas da loira com meu olhar científico-devasso e me deixar levar por aqueles par de seios que cismavam em se mover, cadenciadamente, no decote a minha frente, descobri muito a meu respeito. Por exemplo, eu, que odeio música clássica, percebi que era um fã incondicional de Tchaikovski e Brahms. Quase pus tudo a perder quando ela comentou sobre Bethoven – o músico- e eu disse que ele - o cachorro-ator daquele filme infantil da sessão da tarde - devia ter pulgas. Ela disse que eu estava mais alegre, espirituoso. Bem, tinha razão, afinal, eu aceitei numa boa saber que sempre odiei rock e possuía todos os discos de Barbara Streissand. Ou seja: eu não era nada daquilo que pensava. E daí? Aquela loura enigmática era tudo que me importava. Tentava descobrir algo sobre nós dois.


- E...a gente? Perguntei, assim, assim.
- O que é que tem? Perguntou de volta o avião, me fitando com aquele brilho nos olhos.
- Ah, você sabe... você sabe - joguei todas as fichas naquele blefe, e, se ela não sabia, quem iria saber?
- Olha, morar junto foi uma experiência enriquecedora. Aprendi muito com nosso, digamos, relacionamento.
- Então?- moramos juntos???? tinha que insistir, o que ela queria dizer com "digamos"?
No fundo você estava certo – levantou-se, sedutora, ainda que fingisse o contrário, e, ao chegar à janela, continuou - a gente tinha quase tudo para dar certo, né? você gosta de balé, de badminton... – fala sério, eu?! Balé é coisa de ‘frutinha’!!!-, de tons pastéis, de vinho, enfim, seria uma maravilha, mas não podemos nos enganar. Sempre faltaria alguma coisa.

- Eu sei, Diana, eu sei. Mas também mudei muito nesse meio tempo – descobri o meu lado ator- olha, não nos encontramos por acaso. O acaso não existe – tinha ouvido isso de um cliente da India.

-Nossa, você mudou mesmo. Odiava essas frases feitas.
- Pra você ver. Por isso, quando te vi, bem... (interlúdio) tive a certeza de que tudo poderia ser diferente – me aproximei e segurei seus braços.
- Não, não, não. Eu não poderia dividir meus desejos com vocês dois – que dois, pensei, do que ela estava falando? A coisa havia se complicado. Ela era casada? Claro, que imbecil, é óbvio que ela era casada.
- Mas, mas... eu quero só você! – pelo espelho podia notar minha expressão de amor perfeito. Tinha certeza de que em breve estaríamos na cama.
- Eu sabia que você ia voltar à mesma tecla. Você sempre volta. Mas dessa vez vai ser diferente eu...eu... já liguei.
- Ligou? E daí que você ligou? – pra quem será que ela ligou?

A campainha tocou naquele instante. O acaso não existe, mesmo. Bati o recorde de pensamentos por segundo. O marido? A minha mulher? mas, eu não sou casado, ou sou? E agora não dava pra voltar e dizer que ela havia me confundido com outra pessoa. Ela foi abrir a porta, e, antes de abrir, virou-se.

- Eu só não quero escândalo – de que tipo? Ai meu Deus!
- Eu me posicionei, fiz uma pose rebelde. Se fosse a minha "mulher", diria que não queria mais nada, que Diana era o único amor da minha vida. Mas, para minha surpresa, entrou um cara. Parecia alemão. Os dois metros e tanto eram preenchidos com uma mistura de estivador e lutador de vale-tudo. Ele afastou Diana e se dirigiu a mim.
- O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? – acho que o prédio todo ouviu.
- Nã...nãaa, nããão é nada disso que, que você está pensando – essa frase está no inconsciente coletivo masculino, e é incontrolável.
- EU VOU TE MATAR!- existem centenas de interpretações para essa frase. No entanto, ao ver aquele monstro vindo em minha direção, senti que o negócio era sério. Eu tentei correr pelo apartamento, mas ele me pegou em dois segundos e começou a me enforcar. Posso garantir que não é uma coisa agradável.
- Eu vou te matar Viana, te mataar!!!!!– esse era o meu nome? Viana?. Eu tinha que dizer alguma coisa.
- Calma, calma! eu não quero nada com a tua mulher, isso tudo é um engano!
- Minha...mulher???– acho que disse alguma palavra mágica. O cara me soltou e olhou espantado, Diana idem - Diana, esse aqui não é o Viana. Olha só, não tem a verruga no nariz. Caramba, desculpa, desculpa, fofo... mas, afinal, quem é você? – Salvo por uma verruga.
Foi difícil explicar que eu só queria me dar bem com aquela loira fabulosa, e mais difícil ainda saber que o tal Viana, que não era eu, era bissexual, casado com o alemão - que se chamava Rufo -, e também gostava de Diana, de quem era cabelereiro. Quando os dois me chamaram para uma esticada na noite eu recusei e me mandei pra casa.

Estava entrando em meu edifício quando reparei uma morena de parar o trânsito. Paramos juntos. Estávamos esperando o elevador. Ela olhou e sorriu. Não pensei duas vezes e falei:
- Tá olhando o quê? – resolvi subir pela escada. Nunca se sabe, nunca se sabe.