quarta-feira, 29 de julho de 2009

PRETÉRITO PERFEITO



Na sala, Maria, a empregada, e Maria Aparecida, a patroa, assistiam à novela das seis. Paulinho brincava no chão com seus bonecos japoneses, enquanto Rodolfo lia a folha de São Paulo. Ninguém ali notou quando o vô Asdrúbal passou do banheiro para o seu quarto.
Não sabia bem por que, mas o octogenário acordara diferente, como se procurasse algo importante demais, só que que não sabia o que era. Durante o dia, havia conversado com os amigos da praça. Até ganhara uma partida de damas, algo que há semanas não acontecia. Ouvira o Ribamar falar mal da família, a dona Maricota mais uma vez acusar o genro de estar olhando meio estranho para ela, apesar do rapaz ter uns 30 anos, ser estrábico, e ela ter 92. Nem mesmo a corrida que um pitbull deu no Aparício, que na fuga esqueceu a bengala e a artrite, foi capaz de afastar aquela sensação de que algo não estava muito certo.
Ao entrar em seu quarto, Asdrúbal foi de imediato até o armário. Pegou uma pequena caixa que, não lembrando por que, escondera atrás de perfumes e outros papéis. Sentou na cama e calmamente soprou a poeira que tomara posse da caixa de papelão. Até o desenho, pássaros e árvores do antigo Passeio Público, apresentavam a indelével marca do tempo. Asdrúbal pegou um saco plástico que armazenava seus pertences e desatou a fita.
Nossa!, espantou-se.

Papéis antigos, medalhas de jogos estudantis, cartas de amor que nunca tivera a coragem de enviar, um mundo perdido se mostrava ao velho paraquedista. Pegou um cartão que Carminha lhe mandara, dizendo o quanto a noite no Forte Copacabana havia sido especial. De fato, a partir dali Asdrúbal formaria sua família, e a doce Carminha traria à luz Maria Aparecida. Sim, depois viriam Rodolfo e Paulinho, mas e daí? pensou Asdrúbal, ninguém é perfeito. Olhou demoradamente para uma medalha e foi capaz de lembrar do jogo de vôlei contra a turma do Colégio Santo Inácio, afinal ele era o capitão. Riu desconcertado quando de assalto lhe veio à mente um momento de euforia, logo após a partida, quando saiu correndo em volta da quadra e derrubou a cadeira do juiz, que fraturou três costelas e engoliu o apito. Bons tempos, bons tempos, disse para si.

Um breve suspiro fez o velho militar pensar no quanto tudo havia mudado, e quão rápidas se fizeram as estações. Era mais do que uma sensação de nostalgia indômita, mais do que uma saudade, sentimento que não se consegue explicar. Não, era como uma sensação de roubo. Sim, pensou, era isso, como se houvessem roubado seu mundo, suas implicâncias, seus momentos de plenitude. Espalhou todo o conteúdo do saco plástico na cama, e ficou contente da intrometida da Maria, a empregada, não ter aparecido para perguntar se já podia esquentar o mingau.
Com os dedos, mergulhou no infinito de possibilidades e logo deparou com um álbum de fotos.
Estão todos aqui.
E estavam mesmo. Toda a turma do Colégio Militar, os páraquedistas, o Bráulio, Vasconcelos, Antônio Idalgo, Idelfonso e Venceslau. Havia momentos especiais, como condecorações no Palácio do Catete, mas também flagrantes de pura audácia. A subida no pico da Bandeira foi marcante, e lá estava o Venceslau, sempre sorridente. Aliás, pensou Asdrúbal, o rapaz era um tanto estranho, pois nas empreitadas na mata sempre dormia com um urso branco de pelúcia, dizia que era pra dar sorte. E só agora Asdrúbal notara que em todas as fotos o Venceslau estava olhando de soslaio para o Antônio Idalgo.

A Carminha que estava ali, tão próxima, era pouco mais do que uma menina. Não tinha uma ruga sequer, nem dor de cabeça, nem tinha partido. De repente, Asdrúbal percebeu o que o incomodava. Não era o fato de que hoje em dia já não existe ninguém chamado Idelfonso, ou Venceslau, ou Asdrúbal. O que o incomodava era o tempo.
Esse ser, que não tem forma ou cheiro, que a Física vê como uma quarta dimensão, havia levado tudo que em algum instante fez diferença para Asdrúbal. Ora, que fim levou seu Dodge Dart (que o Paulinho pensa que é raça de cachorro)? E o coronel Apolônio, que lhe ensinou tanto sobre a vida? seus pais, que nunca duvidaram do sucesso do filho, e sempre bancavam viagens de férias no exterior? Onde estavam seus coturnos, sua roupa camuflada? Será que Carminha aceitaria um pedido de namoro? Lágrimas saltaram dos olhos da velha águia, que ficou ainda mais embaraçado quando olhou para seus pertences largados sobre a cama. Ele pegou as fotos de novo e se deu conta de que até as cores haviam desaparecido. Pior, era como se nunca tivessem existido, como se tudo que viveu fosse em tons de cinza e sépia, que é a cor mais distante.
Cinco minutos depois, a família ainda permanece na sala. Só Maria, a empregada, foi para a cozinha esquentar o mingau de seu Asdrúbal. Então, Paulinho ouviu o som de uma chave trancando a porta do quarto. Olhou para o alto da escada e observou o avô, todo impávido. Ele fez um gesto e pediu ao neto que não o denunciasse, não queria atrapalhar a leitura da Folha nem a novela das seis. Paulinho piscou o olho, concordando, enquanto Asdrúbal desapareceu no corredor. Um barulho chamou a atenção da dona da casa.

-Ué, quem saiu? – pergunta Maria.
-Foi o vô.- disse Paulinho.

-Ora, onde será que ele vai a essas horas?

-Não sei, mãe. Ele tá doente?

-Claro que não, menino. Por que você pergunta?

-É que ele estava estranho... todo cinza.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O TEATRO DOS VAMPIROS , ou "Someday we will die in your dreams, How I wish we were here with you now".





EXISTE beleza na dor? A questão pode ser retórica, mas quando Michael Jackson resolve partir definitivamente para Neverland, ela ressurge como nuvens pesadas em um horizonte cinza.
Alguns artistas fazem de seus tormentos obras de rara beleza, e assim acabam se perpetuando no imaginário popular, tornando-se algo maior, mais intenso e mais destrutivo do que poderíamos imaginar. O sucesso, a fama e a tragédia, vez por outra caminham juntos, de mãos dadas.
Nosso mundo emergencial traz explicita uma sentença: Gire as engrenagens, ou seja destroçado por elas. O showbussiness é uma dessas engrenagens, um dos elos fundamentais numa sociedade que se alimenta de ego, dinheiro e abstrações.
Janes Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones e Jim Morrisson, mortos aos 27 anos, tornaram-se exemplos de como as estrelas mais brilhantes se consomem rapidamente. Nesses casos, as drogas foram responsabilizadas pelos trágicos e prematuros desfechos. Mas, ao tomarmos conhecimento da vida desses músicos percebemos que as drogas eram o alívio, vistas como única alternativa para continuar a jornada. Ou interrompê-la.
Jim Morrisson definia o público como um vampiro insaciável, que sugava até a última gota de sangue de seus ‘ídolos’. É como se um artista qualquer desejasse muito fazer sucesso, ter fama, sexo a vontade, milhões na conta bancária e conseguisse exatamente isso. Mas, o preço a se pagar é caro.
Ian Curtis, morto em maio de 1980 aos 23 anos, era o vocalista da banda inlgesa Joy Division. Epilético, fazia de seu problema um motivo de arrebatamento dos fãs. Ele dançava de uma maneira desengonçada imitando, inconscientemente, os espamos da epilepsia. Certa vez, teve um ataque no palco, caindo em cima da bateria de maneira violenta. A platéia delirou.
Curt Cobain, aos 27 anos, em 1994, foi encontrado morto em seu apartamento. Em comum, todos os citados até aqui cometeram suicídio. Seja pela ingestão de drogas, alcool ou pelo estampido de um revolver, eles deram cabo da própria vida. Optaram por isso.
Elvis Presley e Michael Jackson não fogem à regra. A ingestão alucinada de medicamentos é uma das maneiras mais eficazes de suicídio. Elvis, em seus últimos anos, tranformara-se numa auto-paródia. Suas aparições públicas eram um espetáculo bizarro, e a cena dele distribuindo toalhinhas ensopadas de suor para senhoras alucinadas no Madson Square Garden é algo inesquecível. Michael, por sua vez, repetia os mesmos passos e gritinhos há vários anos, e pelo vídeo dos ensaios do que seria sua nova turnê nada mudaria.
Essas pessoas conquistaram o mundo, ou uma boa parcela dele. Subiram a montanha mais alta, de onde se pode ver crianças frágeis, adolescentes histéricos, adultos entediados e velhos saudosistas, todos gritando seus nomes, idolatrando-os. E, ao contemplar esse abismo perceberam que haviam criado e alimentado uma massa triste, perdida, insaciável, que precisa de refereciais, de deuses para adorar.
Artistas assim enriqueceram donos de gravadoras e fornecedores de drogas, em troca receberam o palco, a luz cegante da ribalta.
Esses jovens, e assim serão eternamente, morreram sozinhos em seus apartamentos, cheios de dor e melancolia. Suas biografias, ao mesmo tempo em que os humanizam, que tocam seus pés de barro, os tornam ainda mais rentáveis para a industria que os produziu. Um círculo vicioso.
Essa mesma indústria jamais admitirá que a morte era a única saída para cada um desses artistas, incapazes de conviver com o anonimato, de voltar à caverna, de serem normais. E quem é normal?
Nesse universo estranho, existe até bolsa de apostas sobre quem vai ser o próximo a ir embora. O nome escolhido é Amy Winhouse, afinal, ela tem tudo que é necessário para entrar no halll da eternidade: É jovem, talentosa demais e infinitamente triste.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

ESPERANDO MICHAEL




Michael Jackson morreu...
Essa frase foi provavelmente a mais dita e ouvida no mundo inteiro nesse 26 de junho de 2009. Ainda assim, não parece fazer muito sentido. Ora, Michael não era eterno?
A impressão que temos nesses dias é que algo está terrivelmente errado com o mundo, e não se trata do aquecimento global, nem das eleições no Irã, tampouco da Susan Boyle ter perdido a final de Idols para um grupo de dança bonitinho, mas ordinário.
A música de Jackson está tocando em todas as rádios, sem contar os especiais que são anunciados a cada 10 minutos. Todas as TVs estão colocando chamadas para programas exclusivos (ainda que usem as mesmas – e super batidas - imagens). A impressão que se tem ao andar nas ruas do centro do Rio é a de que estamos em algum filme que tem a trilha sonora do popstar. Porque os camelôs, lojas, lanchonetes e prédios comerciais, também tocam o astro sem parar. Resultado: Michael está em inúmeros lugares ao mesmo tempo.
Ele deixou de ser uma pessoa para se tornar um vírus que vai atingir milhões de pessoas no mundo e render zilhões de euros. Se era um produto esquisito, mas que ainda vendia bem, agora é uma fábrica de fazer dinheiro.
Obviamente, as teorias sobre o que aconteceu começam a pipocar: Michael não morreu. Ele pegou o dinheiro dos shows agendados e vendidos para viajar e assumir o romance secreto com Elvis, que, claro, não morreu também; Michael não morreu, porque na verdade nunca existiu, era apenas parte de um projeto criado para enlouquecer as pessoas com um gritinho estridente; Michael morreu há muitos anos e foi substituído por outro cantor. A prova é que essa cópia andava para trás e gravou um clipe nos anos 80 ao lado do sósia de Paul McCartney, que morreu nos anos 60; Michael matou um de seus 593 sósias e veio para o Brasil. Vai morar no morro Dona Martha, em Botafogo. Ele teria comprado o lugar quando esteve por aqui. Por isso que não tem mais bandido lá, né?; por fim, Michael desistiu dessa vida de astro, tomou um remédio para virar negro e vai morar na Africa.
Todos os horrores da vida de Michael virão à tona e até o que nunca aconteceu vai se tornar a pura verdade. A infância brilhante e triste serão enfatizadas, o pai dele será execrado pelos maus tratos, os irmãs vão gravar um album ao vivo e cantarão junto ao brother famoso, que estará presente em um telão. Sem contar que paranormais começarão a receber mensagens em forma de sussurros e começarão a dançar freneticamente ans sessões espíritas.
Não é difícil imaginar que alguem um dia escreverá a peça: Esperando Michael. Afinal, ele será o elemento que estava para vir... Em seu lugar, teremos apenas a voz sepulcral e a gargalhada apavorante de Vincent Price pairando no ar.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

A TEORIA DA PREVISIBILIDADE

As pessoas poderiam evitar muitos problemas se usassem o artifício poderoso e totalmente eficaz da TP, Teoria da Previsibilidade.
Sua aplicação é simples, pois trata-se da utilização da fórmula: bom senso + noção de lógica. Vamos citar alguns exemplos:


O chefe convida a secretária para jantar num dia qualquer da semana pois tem assuntos da empresa que prefere conversar em particular. TP = 99% de possibiliade da noite terminar com um assédio sexual e/ou uma ameaça de demissão (no caso de uma negativa).


O noticiário da tv mostra uma cratera de 50 metros de diâmetro em uma rua de um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Autoridades vão consertar o lugar em até 48 horas. TP = O buraco continuará aberto por meses, quando será feita uma nova reportagem. Depois continuará aberto, e depois.

Um candidato à presidência, oriundo das classes menos favorecidas, diz que nada vai mudar no seu modo de ser caso seja eleito. TP = Você nem vai reconhecer o homem depois da eleição.


O noticiário da tv mostra uma cratera de 50 metros de diametro em uma rua na zona sul do Rio, onde mora o governador do Estado. TP = o buraco será consertado em menos de uma hora e pessoas serão demitidas.

Uma famosa escola de samba carioca diz que vai entrar na avenida com um mega carro alegórico fantástico e extraordinário de cerca de 100m de comprimento e vai ‘quebrar tudo’, ganhar o carnaval etc. TP = o carro nem vai entrar na avenida porque vai enguiçar ou bater em alguma coisa e aí, sim, quebrar tudo. Por causa disso, a escola perderá vários pontos e cairá pra o grupo de acesso.

Flamengo contrata craque argentino que se apresenta na Gávea, beija a camisa, chora e diz que seu sonho sempre foi jogar nesse time. TP = alguns meses depois de não fazer gols o jogador será vendido para o Vasco da Gama. Lá, ele repetirá o discurso e o gesto.

Empresa diz que vai realizar uma reengenharia e dinamizar os serviços. Todos os funcionários serão beneficiados ao final do processo. TP = demissão em massa
Presidente da República vai a público e diz que um terceiro mandato é algo inimaginável. TP = algo inimaginável vai acontecer.

O ano de 2012 se torna ‘cabalístico’ por causa de uma profecia Maia. TP = autores que ‘acreditam’ no fim do mundo ganharão milhares de dólares com filmes, livros etc. Só não vão explicar o que farão com as fortunas já que planeta vai acabar.

Aviso sobre uma pandemia coloca o mundo em estado de alerta sobre a gripe súina, mas autoridades brasileiras afirmam que não há com o que se preocupar. TP = Hospitais não darão conta do número de infectados.

Polícia do Rio sobe um morro e mata dez pessoas. Segundo o porta-voz da corporação, eram todos traficantes perigosos. TP = È quase certo que o pipoqueiro da favela e o garoto de 2 anos não eram traficantes.

Atriz de 60 que pensa ter 20 é vista na noite com garoto e diz que está apaixonada. TP = Esse caso vai acabar em algum escândalo e ela continuará em evidência.

Escândalos envolvem ministros do Supremo, senadores e deputados: dólares na cueca, fazendas com trabalho escravo, nepotismo, compra de passagens irregulares com dinheiro público, contas secretas etc etc. TP = uma gigante de calabresa

quarta-feira, 24 de junho de 2009

"Acontece que essa vida por aqui pode ser bem divertida, de tão estranha que é!".

Algumas obras transcendem sua aparente limitação de tempo e espaço e ressurgem a todo momento como referência para filmes, séries de tv e mesmo debates filosóficos sobre a existência... é o caso de Alice no País das Maravilhas.
Para grande parte da população mundial que conhece a historia, Alice é uma obra destinada a crianças. Excetuando-se o fato da personagem principal ser uma menina, a história passa um pouco longe daquelas com finais felizes ou lições demoral. Alice é uma garota que não sabe quem é nem onde está... não há também um príncipe para resgatá-la... cada personagem que encontra pelo caminho faz menos sentido que o anterior... enfim: não é um conto de fadas.
O aspecto surrealista da aventura encerra uma série de assuntos que só fazem sentido à luz da filosofia, sobretudo a tentativa vã da descoberta do EU... afinal, quem somos? "Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma" diz Alice, numa das várias conversas quem tem com personagens bizarros. "Mas se eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: Quem é que eu sou? Ah, essa é a grande charada." Outra sacada de Alice, que parece perceber não haver resposta apropriada que atenda a todas as expectativas. Sejam as nossas ou as do meio que nos cerca.
A filosofia e suas eternas questões, no entanto, são apenas a ponta do iceberg. Lewis Caroll construiu uma história que mexe com o tecido da realidade. Não se trata apenas de um sonho, como parece a um observador de superfície. Alice entra em um mundo em que faz a diferença, é o estranho elemento de mudança do lugar. Ela se dá conta de que pode fazer aparecer coisas, se movimentar naquele mundo com uma liberdade que não teria em outra realidade, como a que deixou acima. Inversamente proporcional, Alice descobre dentro da caverna o que os habitantes da mente de Platão descobriram fora da escuridão. É ali, nas trevas, que Alice percebe a liberdade, ainda que esta não seja exatamente algo que tivesse imaginado.
Famosas obras da cultura pop beberam dessa fonte com resultados extraordinários: MATRIX e LOST, por exemplo. Na primeira, Neo se vê obrigado a seguir o coelho branco, isso, no fim, o leva à libertação, ao nirvana. Em LOST, há inúmeras referencias, com destaque para uma cena, na quarta temporada, em que Jack, o médico, lê um trecho de Alice para Aron, seu sobrinho. Nesta série, os sobreviventes do avião se vêem em um lugar estranho, em que as leis da física não se aplicam o tempo todo. Mais, cada um quer descobrir quem é, na verdade. Em comum, essas produções trabalham conceitos de realidades alternativas. Ficção pura? Bem, não é o que diz a física quântica, que apresenta estudos científicos cada vez mais abalisados pela comunidade científica mundial. Caroll, talvez sem se dar conta, anteviu um mundo que fica mais estranho a cada dia.
Esse dois exemplos dão uma idéia da real profundidade em que a garota se mete ao seguir o coelho apressado. O leque de interpretações vai das análises da crítica social, da adolescência cheia de questionamentos, até o vasto universo que é a mente humana.


Leia e faça sua própria viagem.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

NO AR, MAIS UM CAMPEÃO DE AUDIÊNCIA



A indústria da informação vive de grandes comoções, e se as atividades cotidianas de atrizes de 60 que pensam ter 20, políticos, os pequenos acidentes e delitos urbanos, alguns confrontos rurais (envolvendo o MST ou alguma tribo pseudo-canibal) e os gols da rodada fazem parte do cardápio trivial, algo como o acidente do vôo 447 da Air France é considerado como indicação do cheff.
O avião, recheado de brasileiros, franceses e outros passageiros, simplesmente ‘desapareceu’. Esse ingrediente é ainda mais apreciado por redatores e reporteres, que podem lançar mão de inúmeras atrações para o público, como gráficos e animações mostrando o que pode (ou não) ter acontecido, as rotas que o avião pode ter tomado, as hipotéticas decisões do piloto, as possibilidades de sobrevivência. Tudo que é impreciso começa a ganhar contornos dramáticos, especialistas em aviação, civis e militares, se tornam atores principais nos telejornais e criam teorias para explicar o que simplesmente não se sabe.
Um dia depois do acidente a notícia já deu lugar à pura especulação. Nada se sabe sobre o avião, não se sabe sequer o número exato de passageiros (este sim, um verdadeiro absurdo). Quem está no Brasil 'sabe' que havia 57 brasileiros, se estiver na França o número sobe para 58.

Não obstante, já se sabe quem estava a bordo, quer dizer, já se sabe quem era famoso, ou rico, e que estava a bordo, como membros do governo, representantes de grandes empresas e... um príncipe tupiniquim. A manchete de um dos jornais cariocas no dia seguinte era: príncipe brasileiro estava a bordo. Bem, nesse momento, quem acreditava que vivia em uma república se sente enganado.
A lista de passageiros não é divulgada pelos franceses, mas o resto do mundo sabe e divulga, o que torna a decisão francesa uma bobagem em tempos de comunicação em tempo real e imediato. Mesmo assim, os números não batem.
Os repórteres se amontoam aqui e na França, no intuito nobre de transmitir informações. Só que o espetáculo é mais interessante que essa escassez de fatos. Assim, programas especiais são gerados às pressas, parentes dos famosos desaparecidos são entrevistados, casos como o de um casal de idosos, que pretendia comemorar bodas em Paris, ganham ecos de personagens do Titanic, anônimos com história comovente é um prato cheio, sempre. Há também o caso de dois passageiros que vieram entregar doações para brasileiros necessitados e retornavam de sua missão humanitária (isso fez com que a comunidade do Orkut: bonzinho só se fode! ganhasse mais algumas dezenas de adeptos). Enfim, os passageiros receberam um inesperado upgrade em suas vidas, ainda que jamais quisessem algo assim.
Em terra firme, a imprensa descobre os ‘milagres’. Sim, pois há aqueles agraciados pelo destino, ou pelo que quer que suas religiões usem para explicar, pessoas que simplesmente perderam o vôo. OH!!! Um não embarcou porque o passaporte estava irregular, outro porque perdeu os óculos, aquele porque ficou entretido no aeroporto com a amante, e por aí vai. O fato é que se tornam também celebridades. Mais programas são montados para ‘explicar’ a razão desses ‘mistérios’ que salvam pessoas da morte certa. Não é dito que centenas de aviões decolam todos os dias, e na mesma proporção, inúmeros passageiros perdem vôos. Nesses casos, são demitidos por atraso, têm que se explicar com as esposas (ou maridos), perdem contratos importantes, aulas etc etc.

Em acontecimentos como o do vôo 447 existe, secreto, o desejo que a situação se perpetue por mais tempo, pelo menos enquanto durar a curiosidade mórbida-solidária do ser humano. Ao contrário de tsunamis ou outras catástrofes, um avião desaparecido impede ajuda feita através de depósito em contas-corrente, doação de alimentos e roupas (que serão desviados, também misteriosamente, no caminho) e deixa no ar a sensação de que ainda falta a sobremesa.
Afinal, o que terá acontecido ao vôo 447? Teóricos da conspiração sugerem um rapto; partidários dos grupos boderlines do 11 de setembro garantem que Bin Laden seqüestrou o avião para jogá-lo do meio do oceano, explodi-lo com ogivas nucleares e causar um maremoto para devastar alguma capital judaico-cristã; o pessoal da ufologia não têm dúvidas: foi abduzido, e nunca mais teremos notícias.
Na verdade, pilotos experientes dizem que passam por nuvens cumulus nimbus (agora todos sabem o que é uma, certo?) diariamente, e que uma aeronave tão tecnologicamente avançada como aquela, com uma tripulação tão qualificada, não seria pega de surpresa por descargas elétricas facilmente previsíveis. Bastava desviar de algumas nuvens cumulus (você ainda não sabe o que é??? Como assim?). Razões para não ter acontecido o que aconteceu não faltam, explicações pululam, a imprensa embevecida agradece a mais esse campeão (involuntário) de audiência.

No mundo real, longe das mídias e dos vampiros, famílias desesperadas, ávidas por notícias, olham para o céu e rezam a procura de alento.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

É PRECISO ACREDITAR!




É PRECISO ACREDITAR em alguma coisa! Talvez essa seja a frase mais conhecida do mundo. Os especialistas, sejam filósofos acadêmicos e/ou de botequins, partem da premissa básica de que, ou você acredita ou você não existe. Antes de ser, é preciso acreditar.
Assim, a vida vai ganhando seus contornos. As crianças, a partir do momento que se percebem, passam a acreditar em algo. Seja na mãe, no pai, no Papai Noel ou qualquer outra coisa. Elas acreditam no bem e no mal, baseadas unicamente no que ouvem dos mais velhos. Acreditam que eles sabem mais. E não importa se pareçam, por vezes, pessoas solitárias, distantes, se brigam demais ou riem de coisas absurdas.

Na adolescência, descobre-se que é preciso acreditar em outras coisas. Acredita-se, por exemplo, que se é eterno, por isso pode-se fazer qualquer coisa e tudo acaba bem. Aí, nesse tempo, os mais velhos são apenas obsoletos, donos de conceitos ultrapassados. Os conselhos, as palavras, as broncas... tudo obsoleto. Coisa de quem não entende nada e pensa que sabe tudo. Acredita-se então nos ídolos, na tv, no cinema e principalmente no que os amigos dizem sobre roupas e cabelos. Sejam amigos do twiter, msn, orkut ou qualquer outro mecanismo de amizade virtual. Quem disse que para estar junto precisa estar perto? Esse é o lema dos meninos e meninas que acreditam nessa forma de se conhecer alguem.
Na contra-mão, os adultos acreditam que essa geração é pior que a anterior, que, por coincidência era a sua. Julgam por parâmetros que simplesmente não fazem sentido algum para quem nem existia naqueles tempos. Ora, a gente mesmo não consegue acreditar que houve um dia em que não havia celular e que as crianças brincavam nas ruas sem medo de bala perdida, imagine quem tem 15 anos.
Acredita-se que Luciana Gimenez não planejou um filho com um Rolling Stone; que Ronaldinho não sabia que levou três travestis com cara de homem para cama; Que não existe armação no BBB; Que Dado Dolabella é um cara maneiro... acredita-se em cada coisa!
De crença em crença, cada um vive seus universos. Acredita-se em chás para emagrecer (você deve conhecer uma amiga que já experimentou todos, acreditou em todos, e continua gorda); máquinas de fazer atletas em casa (shaper disso, shaper daquilo etc) que enferrujam por desuso; raspadinha, loteria, ficar rico com um trabalho honesto (não... pouca gente acredita nisso). Tem gente que consegue acreditar em política profissional, e diz que não há como viver sem ela. Tem gente que acredita que democracia é um governo feito pelo povo e para o povo.
E não podemos esquecer que quando tudo começa a dar errado é preciso acreditar no sobrenatural. Temos os espíritas, que acreditam em reencarnação para resolução de problemas; indianos que, além de multicoloridos, acreditam em reencarnação sem motivo nem fim; os judeus, que acreditam que são o povo escolhido e não acreditam em Jesus; os cristão que não acreditam que alguem, como os judeus, não acreditam em Jesus. Temos também os que não acreditam em nada porque acreditam que não há no que acreditar.
Acredita-se no amor, o problema é que esse amor é totalmente subjetivo, e depende de quem ama, e a quem se ama. Acredita-se que existe uma fórmula para relacionamentos, seja uma entrega absoluta, uma certa distancia, uma troca ou que amar é apenas afinar o instrumento, de dentro pra fora, de fora pra dentro.
Mas, seja no que for, acreditar é preciso, viver não é preciso.