quarta-feira, 4 de maio de 2011

UM MUNDO SEM HERÓIS




O ser humano é movido a quê? Existem momentos em que os milênios não parecem fazer diferença e a palavra evolução fica perdida em meio a tantas emoções bárbaras. No início da madrugada de 2 de maio de 2011, horário de Brasília, o presidente Barack Obama veio a público prestar contas da sua campanha ao povo norte americano. Veio para dizer que uma de suas metas estava cumprida, Osama Bin Laden estava morto.
A reação dos americanos foi, de certa forma, esperada, afinal, tudo se torna espetáculo naquele país, tudo parece falso e exagerado demais por lá, terra dos sonhos e de grandes pesadelos.
Pessoas de todas as idades saíram pelas ruas cantando, pulando, gritando e glorificando Obama e os soldados que conseguiram o feito épico. Era o fim de um filme sangrento que começou décadas atrás quando um jovem árabe que combatia soviéticos no Afeganistão recebeu treinamento e armas do governo americano para levar adiante sua luta. Após esse episódio o árabe, de família rica e aliada incondicional dos EUA, olhou o mundo em volta, a religião muçulmana, e decidiu mudar o que julgava errado. Inventou uma guerra santa, deturpou as palavras da Tora, recrutou aliados que gostaram dessas idéias radicais e fundou um grupo que ficaria conhecido mundialmente como A Base. A partir daí saiu explodindo coisas e pessoas (principalmente ocidentais) indiscriminadamente para fazer valer seus pontos de vista.
Bin Laden mudou não apenas a vida de alguns muçulmanos, mas de todo os EUA, Afeganistão, Iraque, Paquistão e adjacências. Graças a ele mundo descobriu que aviões comerciais podem ser usados como mísseis e atacar os americanos não é coisa tão difícil assim, basta dedicação e competência.
A partir de 2001, George Bush se tornou um dos presidentes mais aclamados de todos os tempos. Restringiu direitos civis, invadiu o Afeganistão, o Iraque, onde prendeu e patrocinou a execução de Saddan Hussein, fez do mundo um quintal a ser ‘protegido’ do Eixo do Mal. A velha história do lobo protegendo o galinheiro.
O certo é que nada mexeu mais com os EUA, e com o imaginário popular, nos últimos tempos do que Bin Laden. Virou paródia, mito, e de vez em quando aparecia em vídeos feitos em cavernas para falar de sua guerra. Caetano Veloso vendo um desses videos disse que Obama era bonito, e isso denotava a popularidade do homem.
A Base não foi à frente, mas o grupo de Bin Laden se pulverizou pela Europa e Ásia, como uma franquia, tipo Mcdonalds. Se alguém explodia uma carrocinha de pipoca ou um banco, alegava fazer parte da Base, de Bin Laden.
Graças a Bin, Obama provavelmente conseguirá a reeleição e a política norte americana, apesar da crise financeira, do petróleo, do avanço da China, continuará dando as ordens.
Em resumo, os EUA usaram o árabe para justificar a verdadeira política de terror que passaram a implementar a partir de 2001. Dizia-se, diz-se, que o objetivo era combater o terror. Mas, que terror? Se Bin Laden e esses orientais que desprezam a vida são perigosos com seus ataques aqui e ali, o que dizer dos ataques oficiais realizados pelos poderes legalmente instituídos?
O povo levou Hitler ao poder, levou George Bush, pai e filho, ao poder, aceitou Saddan Hussein, exaltou Mao Tse Tung, Julio Cesar, Herodes e milhares de outros. Cada uma dessas pessoas foi responsável pelo massacre de milhares. Todos eles praticaram o verdadeiro terror, invadiram, mataram, estupraram e desprezaram a vida humana em todos os sentidos. E, claro, todos tinham o respaldo de seus conterrâneos.
Assim, ver americanos nas ruas comemorando um assassinato tão sujo quanto os cometidos pelos terroristas islâmicos (as agências de espionagem já admitiram publicamente a tortura violenta de prisioneiros e também que Bin Laden nem armado estava quando foi encontrado e assassinado a sangue frio), como se estivessem no Natal ou no ano novo, rindo, berrando como alucinados é algo que preocupa mais do que ver fanáticos religiosos enrolados em panos velhos.

sábado, 9 de abril de 2011

GENTILEZA GERA GENTILEZA


A semana passada foi marcada por um episódio que já faz parte da história não só do Rio, mas do país inteiro. É claro que todos os detalhes do que aconteceu na escola em Realengo já foram esmiuçados pela mídia, mas uma constante nesses episódios trágicos da vida continua chamando a atenção: a curiosidade mórbida do ser humano.
Muitos reclamam do ‘espetáculo’ que os jornais trazem em suas capas. Seja o Meia-Hora ou O Globo, a idéia é a mesma: impactar, chocar, vender. Em cada esquina da cidade, no dia posterior ao fato, diversas pessoas se amontoavam em frente às bancas. O Dia, que aparentemente voltou a ser um dos mais apelativos jornais da cidade, trazia a capa em fundo preto, uma manchete grotesca (que não vou citar aqui) e fotos de terror absoluto, incluindo uma do atirador inerte na escada da escola. Resultado: pessoas chorando em frente à banca, raiva, ódio, trabalhadores que passaram o dia falando da mesma coisa e revendo as imagens caóticas. Deve ter sido um dia de muita dor de cabeça. E, claro, O DIA agradece aos milhares que compraram o exemplar. Foi o mesmo com todos os jornais. A disputa era pela manchete sensacionalista, valia de tudo, desde depoimentos de crianças apavoradas ao histórico feito às pressas da vida e ‘obra’ do ex-aluno.
Informações desencontradas pipocavam nos sites, fosse sobre o número de vítimas, as motivações (a mídia procurava desesperadamente uma razão para o caso); o teor de uma suposta carta etc etc. Imagens ao vivo pelas emissoras de TV repetiam insistentemente o número de vítimas fatais, e a cada entrada era um número diferente. Mães e pais em pânico foram mostrados à exaustão, os passos do ex-aluno desde o momento em que entrou na escola, se identificou, foi à biblioteca e entrou nas salas de aula eram repetidos em todos os intervalos.
Houve espaço também para os heróis, como o sargento super calmo que deu várias entrevistas e foi homenageado em público pelo governador Sergio Cabral. E foi assim o dia inteiro, a noite inteira e entrou pela madrugada. Resultado, audiência lá em cima.
Notaram que, ao contrário de qualquer outra matéria, as crianças tiveram seus rostos estampados em fotos e foram filmados indiscriminadamente? Foram entrevistados por diversos repórteres, desde o momento em que aconteceu o crime até a noite. Uma menina aparentando calma alarmante falava de sua fuga, da morte das amigas e já planejava o futuro... ?????? e o pior, essa mesma menina estaria no dia seguinte de manhã no programa daquela pessoa chamada Ana Maria Braga, que assim que viu a menina foi logo elogiando o cabelo comprido e penteado (feito nos bastidores, claro). E lá foi a menina ser massacrada por perguntas óbvias e tristes e pela risada fantasmagórica dessa senhora viciada em botox. PERGUNTA: CADÊ o respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente? Como é possível explorar dessa forma crianças que durante anos, talvez pela vida inteira, serão vítimas do que aconteceu aos seus amigos de sala?
Sobre o tal ex-aluno, a mídia o tornou um astro. Das crianças mortas, pouco se sabe, mas dele só falta um programa no estilo Por Toda a Minha Vida. Era um menino quieto, estudioso, segundo suas professoras; vítima de bullying (palavra nova para velhos hábitos); nunca teve namorada; era adotado pela tia pois a mãe era esquizofrênica e tentou suicídio; achou sensacional o 11 de setembro, segundo seu irmão (que tem voz de mulher e mora do DF); queria jogar um avião no Cristo Redentor; passava horas e horas na internet; era ligado profundamente em religião e apesar de citar a Bíblia se vestia, segundo disseram, como um fundamentalista islâmico; deixou uma carta pra lá de estranha... pelo menos pra gente, era um louco. Resultado: A GLOBO e todas as outras emissoras não conseguiram o que queriam, uma RAZÃO para o crime. Simplesmente não há ‘razão’ quando se fala em esquizofrenia. Que chato, plim-plim...

Agora, talvez seja a hora de pensarmos, não nas manchetes e nas TVs, mas em nós. A mídia só faz o que faz porque tem audiência. Enquanto alimentarmos esses vampiros que existem dentro de nós e que adoram ver tragédias, sangue e guerra e escombros e intriga e violência, nada muda. Na verdade, nada muda se você não mudar. Talvez, se o mundo fosse um lugar melhor as coisas fossem diferentes, pensam... mas gente, nós fazemos o mundo!
O título da crônica tem a ver com a percepção de um homem que também era visto como um louco por muita gente, talvez fosse, mas sua ‘loucura’ era baseada no amor, na tolerância, na amizade. ‘Gentileza gera Gentileza’ não será manchete, não venderá milhões de exemplares, não vai atrair patrocinadores. É apenas uma idéia, uma sugestão de pauta para nossas vidas.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

QUANTAS VIDAS HÁ EM UM LOBO?


A vida passa rápido demais... e você tem poucas opções, na verdade tem apenas duas: ou a leva para onde achar melhor ou deixa que ela te leve para um lugar qualquer e depois não adianta reclamar.
Essa reflexão em cima de velhos clichês chega após a leitura da biografia do Lobão, “50 anos a mil”. João Luiz teve uma vida bem agitada até aqui e justifica plenamente o título do livro, que tem 600 páginas.
Particularmente, Lobão sempre me pareceu um bom vivant, um carinha que sempre teve tudo e por isso mesmo fazia a pose de insatisfeito, de coitado, de vítima, para chamar a atenção da mídia, estar em evidência. No caso, minha preconceituosidade se mostrou bem distante da realidade.
Woenderbag Filho é um ser altamente complexo em seus rompantes, por vezes maníaco-depressivos. Se na infância e adolescência suas aventuras são repletas de energia e expectativas, se tem seus medos, suas vitórias e suas dúvidas, como qualquer um, aos poucos passa a viver um mundo de estranhezas a la Lovercraft, em que se sente vazio, tendo de conviver com uma família que lembra muito os Adamns. Os conflitos com o pai, que degringolam para a violência musical explícita, quando quebra um violão na cabeça de seu progenitor; a ‘coisa’ mal explicada com a mãe, que era mais um personagem do que uma pessoa, de tanto que buscou uma vida que nunca conseguiu encontrar, tal e qual um pinocchio em busca de se tornar real. E tudo termina muito mal para essa família.
A mãe comete suicídio e joga a culpa no Lobo, fazendo inclusive um discurso de despedida para seus pequenos alunos em plena sala de aula...deve ter sido bem tétrica essa cena. Já o pai tem uma despedida sincera na cama de um hospital, um episódio triste e cheio de significados e redenções para Lobão.
As páginas dessa autobiografia são aplicadas, entorpecem e dão um clima junkie ao produto final. Há drogas, carreiras espalhadas entre os parágrafos, numa quantidade que as vezes escapa ao controle. Não é a toa que as primeiras páginas se passam numa capela, onde Lobão e Cazuza se debruçam sobre o caixão de Julio Barroso e na alta madrugada chafurdam a última carreira em homenagem ao amigo suicida.
Pensava em lobão como um artista de poucos sucessos e nos anos 80 não era um dos preferidos. Ele sempre falou mais do que cantou. E no livro destila seu incômodo em relação ao mundo que habita, talvez por isso tenha lido tantas vezes Nisztchie, e ninguém faz isso impunemente. Suas tentativas de suicídio que o digam.
A obsessão por Herbert Vianna é patética, pois apesar das ‘coincidências’ os trabalhos são e sempre foram muito diferentes. Mas para João Luiz Lobo a coisa era séria demais... só para ele.
O envolvimento com o samba e com a marginalidade, o tempo na cadeia e a briga com as gravadoras dão o tom pesado da empreitada literária. E as notas que passam a constar a partir da pág 290 são exageradas, mais do mesmo puro. A explicação é de que são necessárias para mostrar que Lobão não tava viajando na sua prosa. Ora, ou você confia no autor ou não confia. Quanto tempo desperdicei quando o mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém, como diria seu Renato.
Sobra pouco espaço para o amor com Regina e menos ainda são as linhas dedicadas a filha. Isso não é gratuito, é emblemático. Lobão continua querendo espaço, o ostracismo talvez o levasse a Queda na Noite Escura definitiva, e talvez não tivesse tanta sorte quanto nas ultimas tentativas de desaparecer. Ele se diz uma pessoa melhor... melhor pra quem? Por que dizer isso? Parece querer convencer a si e não aos leitores. Quem é feliz de verdade não alardeia aos quatro ventos, deixa que perceçam, e se não perceberem que se explodam.
Leandro Mazzini, um amigo repórter em Brasília, disse que abriu as primeiras páginas e assim que percebeu que não havia nada de literatura no livro desistiu imediatamente. Pena, pois o que não falta é drama, aventura e tragédias... todos os ingredientes necessários a uma obra literária. Se não há forma, há idéias, conteúdo.
Lobão tem seu ponto de vista da sociedade em que vive, é contraditório, concessivo, atrapalhado, verborrágico, patético e exagerado, mas por isso mesmo vale a pena ser lido.

domingo, 9 de janeiro de 2011

JÁ FEZ SUA BIOGRAFIA HOJE?



Tudo bem, vivemos mesmo um período de muita velocidade, principalmente se pautarmos nossa primata existência pesudo-espiritual nos bits da tecnologia. Graças a essa extensão de nossos cérebros, que estão sendo transportados para o interior de pendrives, nossos valores ganham outras percepções. E o mundo jamais será o mesmo.
Uma constatação bem simples do que o excesso de informação disponível pode produzir é notada também fora das máquinas, trata-se da proliferação de biografias à venda. Até algum tempo, esse tipo de leitura era prazerosa, esperada por muitos leitores que gostam de saber detalhes da vida de personagens importantes para o cenário mundial, expoentes da grande aventura humana, pessoas que através de suas palavras e atitudes tornaram sua vida um exemplo, para o bem ou para o mal.
A biografia do quase profeta brasileiro Gentileza, por exemplo, é algo digno de nota, bem como a de John Lennon ou de Ghandi. Hitler, a despeito de nunca ter sido um ser humano, merece ser lido, afinal, temos em sua vida um belo exemplo de tudo que não devemos despertar em nosso interior. E o que dizer de Michael Jackson, que através de gritinhos, sussurros e passos para trás foi construindo sua trajetória? Na infância, só foi chamado de bonito quando levava surras do pai ao desafinar uma nota. O velho Jackson berrava: “Bonito, Né????? TOMA!!!” e lhe descia o sarrafo. Ah, Michael sim, merece biografia, afinal, um ser que nasce negro vira bege e morava em um lugar que todos pensavam que só existisse no livro Alice no País das Maravilhas, é digno de nota.
Queremos saber do Silvio Santos, o Sr. Gargalhada; do Roberto Marinho e seu império fantástico; do Pablo Picasso, que passava o pincel em telas e mulheres com a mesma facilidade; do Leornardo Da Vinci, que se vivesse hoje seria perseguido por garotos paulistas e teria uma lâmpada fluorescente partida em sua cabeça; queremos ler a biografia de Freud e Jung e do Bezerra da Silva.
Atualmente estou lendo a biografia do Lobão, que é simples, objetiva e cheia de situações bizarras desde a infância. Tão bizarras quanto a de cada um de nós. Mas vale, porque o Lobão sempre foi um falastrão impulsivo e com senso aguçado de marketing. Assim, nas trocentas páginas de “50 anos a mi’, temos o retrato de um rebelde sem causa, rico, excêntrico e que não faz questão de agradar ninguém. Mas, que, acima de tudo, tem atitude.
Existem milhares de pessoas que merecem ter a vida revelada nas páginas de um livro, mas o que dizer de Justin Bieber? O garoto de 16 anos... dezesseis!!!
Quem gosta, diz que ele merece, afinal, já tem mais história do que a maioria dos mortais pobres, simplórios e sem criatividade que povoam o planeta, e os que odeiam dizem que é apenas mais uma jogada de marketing para aumentar o saldo da conta bancária do moleque. Bem, independente do amor e do ódio, é óbvio que o garoto não tem bagagem alguma para render uma biografia, a não ser que nela se revele como é possível um garoto chato, com penteado igual ao do Roberto Leal (um português meio panelero que fez muito sucesso no Brasil é hoje é amigo do Amaury Junior e de vez em quando surge para falar de culinária), tenha conseguido tanto sucesso. Ele não canta bem, não dança bem etc etc...
E nessa lista de biografias improváveis temos Amy Winhouse, que apesar das 350 tentativas de suicídio ainda está na casa dos vinte e também o ... RESTART! Pára tudo!!!! RESTART? Aqueles garotos de 18 anos que aparecem em diversos programas para cantar sempre a mesma música, cujos integrantes têm nomes como Pelanza, Peludo, Pelado..., que o vocalista não consegue aparecer em uma única foto sem fazer careta e sinais, que possuem apenas um cd, que inventaram uma tal ‘família Restart’ para a qual fazem coraçõezinhos durante as apresentações, que obrigou uma garota na internet a criar uma frase tão cheia de sentido quanto “Isso é uma puta falta de sacanagem” ? sim, eles mesmo.
Pensa que acabou? Em breve Maisa, a garota-pentelha, promete revelações bombásticas sobre sua vida com Silvio Santos, e Tiririca diz que os leitores podem esperar surpresas em sua autobiografia. Nesse caso, os leitores podem esperar mesmo... se tudo der certo para o palhaço-deputado, ou deputado-palhaço, as primeiras 10 folhas manuscritas pelo próprio Tiririca estarão prontas em 25 anos.
Bem, amigos, devemos estar atentos aos sinais que os tempos trazem. As mensagens de que alguma coisa está errada estão por todo lado, e quando crianças começam a ganhar biografias é hora de abrir a Bíblia, o Alcorão, o Minutos de Sabedoria... e rezar.

domingo, 28 de novembro de 2010

ONDE FOI PARAR A GUERRA?



O Rio de Janeiro viveu uma semana inesquecível, a última do mês de novembro de 2010. Tivemos fogo, explosões, medo, pânico e muita rede globo.

De repente, bandidos passaram a queimar carros em vários pontos do Rio. A primeira declaração de um delegado foi: “Temos a certeza de que não se trata de algo organizado...”. Bem, claro que ele estava mentindo.

Com o passar dos dias o número de carros, caminhões, ônibus queimados a qualquer hora do dia cresceram, saíram da casa da unidade para a da dezena. Chegou num ponto em que a cidade começou a sentir medo. Boatos começaram a pipocar, e duas caixas suspeitas, deixadas em Ipanema, mobilizaram o esquadrão anti bomba e dezenas de desocupados que passavam pelo local. Não havia perigo, era uma campanha publicitária. Por isso, alguns dizem que a publicidade é o mal do mundo.

Finalmente, as forças policiais, incluindo polícia militar, civil e a Marinha resolveram colocar em prática um plano fantástico, uma ação conjunta. Uma ação um tanto óbvia, não? Resultado, a população, que já vivia o clima de pânico generalizado por não agüentar mais ouvir a respeito dos ataques marginais que queimavam carros a torto e a direita, passou a ficar um pouco pior, pois a força conjunta dava entrevistas e falava que invadiriam a famosa Vila Cruzeiro.

Bem, a guerra psicológica, alimentada pela cobertura da rede globo (principalmente), deu certo. Empresas liberaram funcionários mais cedo, escolas não abriram, trens mudaram itinerários etc. A audiência foi lá em cima.

Nada na Globo é mínimo. Quando eles decidem explorar um assunto, ninguém segura. Não teve para Datena, Wagner Montes ou qualquer concorrente. A maior parte dos televisores estava ligada na tela do plim plim.

E assim, no dia 26 de novembro, todo mundo pôde acompanhar os repórteres e apresentadores de telejornais globais tendo suas horas e mais horas e mais horas de fama.

o clima:

A polícia, contando com blindados da Marinha, invadiu a Vila Cruzeiro. O senhor Pimentel, que além de inspirar o comandante Nascimento do Tropa de Elite 2, faz um bico como explicador no RJ TV, chamava a atenção para o que a polícia encontraria... muita resistência. Afinal, eram cerca de 700 bandidos fortemente armados, com táticas de guerrilha, que, segundo sua análise crítica, não se entregariam.

Lá embaixo, o hospital Getulio Vargas fora preparado para receber os feridos em combate; diversas ambulâncias haviam sido preparadas para o pior; helicópteros sobrevoavam a região... a tensão crescia. Toda a programação da Globo foi cancelada para transmitir esse confronto épico.

Mas... depois de horas de um falatório retórico, nada aconteceu. Até que... uma imagem capturada pelo Globocop, claro, flagrou algo. Eram... os bandidos (parecia um bando de adolescentes correndo atrás de doce em dia de Cosme e Damião), correndo desesperados por uma estrada. Eram centenas. Os bandidos temidos eram toscos, monstros construídos de maconha e cocaína, que seguiam as ordens de outros vermes sociais, caso do tal Elias Maluco. Maluco era quem seguia essa ‘coisa’. Os traficantes realmente estavam armados, mas mal conseguiam segurar as armas enquanto seguiam rumo ao complexo do Alemão.

Bem, a Globo conseguiu um furo de reportagem. Pois essa fuga foi a única coisa digna de registro. Tanto que a imagem era reprisada de 10 em 10 minutos. Quem não estava atento ao áudio achou que milhares de bandidos estavam em fuga. Ah, a Globo foi proibida pelo BOPE de mandar esse helicóptero de novo para mostrar o que a polícia não viu. E as imagens já estão à venda nos camelôs de sua confiança, com o nome de Tropa de elite 3... deve ter os comentários do Pimentel.

E assim, no dia seguinte, foi a vez de mostrar a expectativa da guerra que não houve. Mas, segundo Pimentel, o homem sábio, dessa vez os meliantes não se entregariam sem luta. Pois não havia como fugir pelo lugar de onde vieram, uma vez que as forças policiais dominaram a região da Vila Cruzeiro com extrema facilidade.

E lá foi a rede globo cancelar toda a programação de domingo, pois no sábado houve apenas mais retórica e infográficos. Desde as 8h repórteres se revezaram para transmitir o incrível combate, agora seria no complexo do alemão. Olha, pior que Pimentel só o Alex Escobar. NÃO HOUVE COMBATE!!!

A polícia invadiu, jogou cartas, brincou de pique-esconde e tomou conta do local. Os bandidos simplesmente sumiram. Alguns foram presos, outros serão ao longo da semana, meses etc. Pra quem esperava e anunciava uma guerra, foi deprimente reportar que morreram apenas dois traficantes e mesmo assim, lá em Inhaúma, longe do palco preparado.

Bem, o lado bom foi exatamente não ter acontecido um banho de sangue, foi ver todas as forças policiais atuando em conjunto, a população aplaudindo soldados do exercito nas ruas (e 1964???). Foi ver as mulheres e advogados dessa corja de bandidos serem presos e ter os bens tornados indisponíveis. Bom foi ver os moradores dessa região sentindo-se livres, em paz, de certa forma.

Lá no morro, havia maconha, armas, tudo em tonelada. Mas bandidos marrentos... nenhum. Isso mostrou a cara covarde dos traficantes, que são cruéis apenas com civis, mas que nunca tiveram a menor condição de enfrentar o Estado.

O que não muda:

Quem leva armamento pesado para os morros mora longe dali, é rico, alguns têm patentes;

Quem alimenta o tráfico são os usuários, sem eles, não há traficantes;

O Pimentel vai continuar na Rede Globo

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

OS DESABRIGADOS DA UPP





Um dos problemas que mais afligem a população das grandes cidades é a falta de habitação, de moradias dignas. E o que dizer quando moradores são obrigados a deixar suas casas por causa da polícia? Isso, sim, é o fim do mundo.
Agora, devido à instalação das chamadas UPPs -Unidades de Policia Pacificadora-, estamos presenciando um êxodo dos antigos donos dos morros, quer dizer, das comunidades. É triste, tocante, ver homens saindo no meio da madrugada, deixando seus barracos de dois e tres andares personalizados. E olha que alguns têm piscina, sala de jogos e câmaras de tortura de última geração.
Andando sem direção, adolescentes, pós-adolescentes e adultos, olham para o futuro incerto. Nas mãos, carregam seu fuzis, suas pistolas, um saquinho plástico com granadas e grandes sacolôes de drogas. Alguns olham para o céu, certamente lembrando do espetáculo das balas traçantes, aqueles projéteis lindos, riscando o céu da cidade. Ah, que saudade das balas perdidas, aquelas safadinhas que nunca acertavam a pessoa certa.
Olhando para trás é facil perceber a lágrima que escorre de alguns olhos. Principalmente ao lembrar dos bailes funks, dos proibidões, das meninas que apareciam grávidas e não faziam a menor ideia de quem era o pai. Tudo bem, porque eles também não faziam a menor idéia de que tinham filho. Tudo livre, bem natural, sem essas neuroses, esses medos doenças fatais e outras bobeiras exploradas pela mídia neoliberal.
Ao passar pela parte elevada do morro, alguns param e ficam ali, olhando para o microondas. Era tão divertido, pensa um.
E assim, numa fila indiana, eles descem. Já são centenas em todo o estado. Desabrigados, desajustados, sem a menor chance de conseguir outro emprego tão legal. Imagina, um deles ganhava pra soltar pipas quando via a polícia chegar. Agora, a pipa não sobe mais. É duro pensar que nenhum deles vai ganahr promoção por derrubar helicópteros.
O que resta a fazer? talvez alguns arrastões, quem sabe queimar uns onibus... mas, é besteira, nada vai substituir a sensação de ser o rei do morro, de comandar os moradores, sempre tão receptivos, tão obedientes. A adrenalina de atrair as patricinhas da zonal sul, que querem mais é emoção, o perigo, a imagem viril do dono da boca, com suas bazucas.
E a gente pergunta, pra onde vão todos eles?
Tem gente dizendo que a retirada nada mais é do que um acordo de ‘cavalheiros’, em que o poder público se compromete com o poder local a devolver as terras ocupadas depois de 2016, ao fim das Olimpiadas. Até lá, a galera pega mais leve, vai para outros municipios, estados. E todo mundo fica bem na foto.
Parece haver um elemento ficcional nessa ‘teoria da conspiração’, mas basta ver a declaração de atores famosos e produtores internacionais que vêm filmar no Rio, nas comunidades, para se ter a certeza de que tais acordos existem e são praxe, apesar da negativa oficial.
As autoridades constituídas trabalham sempre com a hipótese de de que a população é ingênua, passiva, e vai acreditar nas declarações oficiais. Recentemente alegaram que os arrastões são fatos isolados, sem nenhuma orquestração. E logo depois 19 comandantes de quarteis no Rio foram trocados. A realidade é algo em que voce acredita

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

RESPEITÁVEL PÚBLICO... O SHOW NÃO PODE PARAR!!!

Para quem gosta de eleições, nada como um segundo turno. Aproveitar seu domingo para realizar o ato cívico, degustar cada segundo diante das urnas como quem sorve um néctar dos deuses. Sim, no dia 31 de outubro seremos obrigados, em nossa pretensa democracia, a votar, a escolher quem vai ficar à frente do governo nos proximos quatro anos. A pessoa na qual vamos depositar nossas frustrações e culpar por nossas omissões, por nossa inércia.
Dilma Roussef , com sua inexpressividade, suas chapinhas e sua absoluta falta de carisma, passa a correr riscos. Ela, assim como muita gente, pensava que a simples presença do mais querido presidente brasileiro de todos os tempos agora nesse segundo seria suficiente para ganhar no primeiro turno... não foi.
O fato de ser uma mulher, a primeira com reais chances de chegar lá, não mudou em nada o humor dos eleitores. Quem viu algum debate na tv sabe que Dilma tem dificuldades para convencer até seus eleitores mais elementares, ainda mais quando o assunto é polêmico.
José Serra, por outro lado, é macaco velho. Mas, nesse caso, tão velho que já está passando do ponto. Ele é lento, lerdo e saudosista demais. A qualquer pergunta, sempre citava sua passagem no governo de São Paulo... "Quando eu fui governador de São Paulo...". ou seja, ao invés de olhar para o futuro retumbante, mirava seu passado cheio de poluição da grande metrópole. Sua presença nos debates dava sono. A impressão era a de que ele estava confortavelmente esperando o fim da eleição no primeiro turno para descansar, pescando às margens do Tietê.
Para complicar isso tudo, havia a Marina. Talvez o fato dela ser muito magra e virtualmente invisível de perfil, tenha influenciado os institutos de pesquisas, que erraram feio, mais uma vez, e não detectaram os milhões de votos ambientalistas evangélicos da candidata. Por causa disso, teremos o tal segundo turno. E o pior, não teremos Plínio para alegrar o ambiente.
Enquanto isso, já com seu novo/velho governador, o Rio retoma sua vocação, a de cidade da aventura. A novidade é que os arrastões saíram das areias de Ipanema e invadiram as ruas da cidade. É uma versão upgrade. Pois, se na praia os bandidos usavam bermudas e raramente estavam armados, nas esquinas, eles portam metralhadoras, fuzis e granadas.
A desculpa oficial é a de que as UPPs estão expulsando os meliantes para o asfalto. Se é assim, por que não previram e tomaram atitude? Se previram, então o problema é maior, e a impressão é a de que estão empurrando sujeira para debaixo do tapete.
Nesse ritmo, os mega eventos de 2014 e 2016 passam a ser incógnitas no país da Tropa de elite 2...