quarta-feira, 30 de setembro de 2009

DEUS É O DESTINO


Estava reparando o nosso cotidiano, as ‘estranhas coincidencias’ que existem na vida de cada um de nós... Isso pode ser um ponto de partida para um debate contra o livre-arbítrio. Pensemos: você realmente planejou ficar com a pessoa que está do seu lado? Lembra de como achou esquisito o fato de estar naquele local, naquele exato momento, e que se assim não fosse, vocês nem teriam se olhado? Sim, e da mesma forma você pode ter percebido ‘de repente’ um sentimento por alguem que sempre esteve perto de você e jamais te chamou a atenção... até aquele momento. Isso sem falar em por que você não embarcou naquele avião que caiu, ou aceitou o convite para uma festa onde conheceu pessoas que mudaram seu destino profissional.
Se existisse o livre-arbítrio, só faria sentido se todos tivessem as mesmas chances. Se todos nascessem com as mesmas oportunidades. E quem conhece o continente africano, por exemplo, sabe que não é bem assim.
O que explica o sucesso de uns e o fracasso de outros? A determinação? Hummm... bem, você conhece pessoas determinadas que não vão a lugar algum, certo? Barrichello é determinado! E outras que não estão nem aí para o mundo ao redor e são extremamente bem-sucedidas, certo? Pois é.
Depois de ler bastante e de observar mais ainda, estou cada vez mais convicto de que existe apenas o que podemos chamar de destino. Entendo Deus como O CRIADOR. Ele é o autor desse filme que chamamos vida. E nós somos personagens.... apenas isso. E já é muito. Fomos escolhidos para estar aqui por Ele, só isso já vale.
Ah, vão dizer, então Deus é um injusto, pois faz personagens tristes, com doenças incuráveis, que nascem e morrem em condições miseráveis. E de outro lado, escreve roteiros de felicidade e sucesso para uns poucos. Que justiça há nisso? Ora, essa indagação não se sustenta, pois seria o mesmo que o personagem de Leonardo Di Caprio no filme Titanic questionasse sua morte. O problema com essa suposta justiça é que ela é baseada em conceitos humanos. Deus, não é humano.
Assim, do meu ponto de vista, tudo é perfeitamente explicável e terrivelmente simples. Tudo, todas as nossas emoções e questionamentos, estão no script. Em que familia vamos nascer, de quem vamos gostar, do que vamos gostar. Nosso time do coração, nossa aversão por futebol, nossas certezas e dúvidas. Você olha uma pessoa e diz: ‘não sei por que, mas não fui com a cara desse sujeito’... o Autor tem muito senso de humor.
Vão retrucar: ah, tá, então vou ficar sentado aqui, já que não passo de um personagem! Sim, vai sim, se estiver escrito para você. E se você rir de tudo e seguir seu rumo, ganhar na mega-sena acumulada etc... também isso está escrito.
Provas? Sua vida. Olhe para trás nesse exato instante e reveja grandes momentos, alegres e tristes, lembre-se de como aconteceram. Lembre-se das suas escolhas. Não, não foi mero acaso. Seja você um rico e bem sucedido empresário ou um alguem que perdeu tudo e está sozinho na frente do computador.
Aí, voce pode se questionar, por que não foi escolhido para ser um jogador multimilionário... por que voce, que gosta de escrever, não está na ABL como o Paulo Coelho, que, a rigor, nem escreve bem? A resposta é: por que o Criador fez outro personagem para voce. E tem mais, seja um sucesso ou um fracasso, goste ou não do que tem, você é protagonista.
Deus fez um livro bem especial, onde só tem protagonistas. Uma idéia absolutamente genial, que só podia vir Dele. Aliás, uma idéia tão genial me faz pensar que Ele pode ser uma criança... hummm essa pista tem até na Bíblia, que é um livro interessante.
Mas... se é mesmo assim, você está intrigado, nós não saberíamos disso e não estariamos aqui discutindo a possibilidade. Por que, não? Ele também é irônico.
O Criador fez inumeras religiôes, mas cuidou de deixar claro que o caminho é um só... outra pegadinha. Assim, seja espírita ou adepto de outras linhas que explicam a vida à luz das reencarnações, ou seja um fiel seguidor de outra, que imagina um mundo divino após esse, ou ainda, um muçulmano que tem a certeza de que vai morrer e encontrar 72 virgens esperando por ele, bem... você foi criado para pensar assim. Busca uma verdade, ou duas, ou três, no fundo só para passar o tempo que dura SUA história.

Às vezes, os personagens também enchem linguiça, para depois cair num climax sensacional. Claro, o autor tem que amarrar a trama, e com 7 bilhoes de astros é difícil. Quer dizer, difícil, não, trabalhoso. Por isso, às vezes você tem a percepção de que o tempo passa rápido, e ás vezes, de que tudo está parado demais. Talento... o Criador é Puro Talento. Pois o tempo é sempre o mesmo, a percepção do personagem é que muda.
E o que tem depois que a história acaba?


Rsrsrs quem disse que acaba?

terça-feira, 8 de setembro de 2009

EI, LEMBRA DE MIM?




Caminhava pela Visconde de Pirajá, na bela e ensolarada Ipanema. Depois de um dia de serviço na agência o que eu mais queria era sossego.
Andando em minha direção vinha uma deusa, cerca 1,80m, olhos azuis, e loira, mas loira mesmo, daquelas que, quando o sol ilumina o rosto você tem certeza de que Afrodite deixou descendentes para mostrar aos pobres mortais o real sentido da beleza. E olha que em Ipanema o que não falta é ninfa, fada e sereia. Mas, aquilo tudo que vinha em minha direção estava além das classificações.
Ela provavelmente não me daria bola, mas olhei assim mesmo, que mal poderia haver? Para minha surpresa, ela não só olhou de volta como abriu o sorriso mais delicioso e convidativo do mundo. Sabe essas horas em que você quer muito que algo aconteça, e quando acontece você não sabe como se portar? Pois é!

- Oooooooi!- disse ela, com uma euforia ímpar.
- Oi - disse eu, gaguejando.
- Não acredito que te encontrei, queria tanto te ver novo! - era a primeira vez que uma escultura me abraçava.
- Ah, puxa, é mesmo, quanto tempo, hein?- eu não podia dizer que não a conhecia, seria um dos daqueles erros imbecis que te acompanham a vida inteira.
E a galera?
- A galera... Ahh, a galera há há há... a galera? Sabia que você ia perguntar. Tá legal! aquela galera tá sempre legal - não ia me entregar fácil. Se eu fazia parte da galera, bem, então eu fazia. - Eu amava a galera.
- Eu tenho saudades da nossa "txurminha", do Fred, da Val, e da Beth, então...
- Puxa, que coincidência, a Beth perguntou por você – era um gancho para manter a conversa. Ora, é claro que a Beth poderia ter perguntado por ela. Quem sabe a Beth não era a melhor amiga?
- Perguntou?
- Há há há, claro. Mandou um beijão.
- Ué, mas ela não morreu?
- Hã?! Ah, é, é... mas foi antes - tem que ter jogo de cintura nessas horas.
- Eu moro aqui agora, nesse prédio, vamos até o meu apartamento? A gente toma um drink. Puxa, estou tão feliz em te ver, tão feliz – se ela estava feliz, o que eu podia dizer???
Claro! Quer dizer, por mim tudo bem.

Eu não sabia seu nome, no entanto, já fazia parte da galera, e era amigo, ou, quem sabe, algo mais caliente, daquele monumento. Morava no 21º andar. Um apartamento grande, bem decorado, com samambaias dispersas pela sala. Eu odeio planta em apartamento, acho que não tem nada a ver...


- Gosta das minha plantinhas?
- Demais essas samambaias! – repensei meus conceitos e segurei o espirro.
- Segui seu conselho.
- Há! rsrsrs eu sabia que você ia acabar entendendo a importância AAAATCHIMMM... desculpa. – Conselho? Que conselho eu dei a ela?

Enquanto sentava no sofá, ela pediu licença para dar um telefonema. Era segredo, pois levou o aparelho para o quarto, no fim do corredor. Aproveitei para ver se alguma coisa na casa daria uma pista do seu nome. Verifiquei na estante. Havia fotos dela em Paris, na Espanha e em praias paradisíacas. Claro que os lugares perdiam longe, ela era a melhor paisagem do mundo. Percebi que a sorte estava do meu lado quando ví uma correspondência na mesa. Diana. Bingo! Era mesmo uma deusa. Então, ela voltou. Com um vinho e duas taças.

- Eu nem acredito que a gente tá de novo assim, tão junto! Há quanto tempo a gente não se fala?- bem, eu tenho 35 anos, pensei.
- Ah, sei lá, para mim o tempo é relativo, acho que nunca saí de perto de você – essa minha frase foi, modéstia à parte, perfeita.

Sei que passamos os próximos minutos tomando vinho e conversando sobre assuntos gerais: filmes, músicas, Barack Obama etc. Além de percorrer todas as curvas da loira com meu olhar científico-devasso e me deixar levar por aqueles par de seios que cismavam em se mover, cadenciadamente, no decote a minha frente, descobri muito a meu respeito. Por exemplo, eu, que odeio música clássica, percebi que era um fã incondicional de Tchaikovski e Brahms. Quase pus tudo a perder quando ela comentou sobre Bethoven – o músico- e eu disse que ele - o cachorro-ator daquele filme infantil da sessão da tarde - devia ter pulgas. Ela disse que eu estava mais alegre, espirituoso. Bem, tinha razão, afinal, eu aceitei numa boa saber que sempre odiei rock e possuía todos os discos de Barbara Streissand. Ou seja: eu não era nada daquilo que pensava. E daí? Aquela loura enigmática era tudo que me importava. Tentava descobrir algo sobre nós dois.


- E...a gente? Perguntei, assim, assim.
- O que é que tem? Perguntou de volta o avião, me fitando com aquele brilho nos olhos.
- Ah, você sabe... você sabe - joguei todas as fichas naquele blefe, e, se ela não sabia, quem iria saber?
- Olha, morar junto foi uma experiência enriquecedora. Aprendi muito com nosso, digamos, relacionamento.
- Então?- moramos juntos???? tinha que insistir, o que ela queria dizer com "digamos"?
No fundo você estava certo – levantou-se, sedutora, ainda que fingisse o contrário, e, ao chegar à janela, continuou - a gente tinha quase tudo para dar certo, né? você gosta de balé, de badminton... – fala sério, eu?! Balé é coisa de ‘frutinha’!!!-, de tons pastéis, de vinho, enfim, seria uma maravilha, mas não podemos nos enganar. Sempre faltaria alguma coisa.

- Eu sei, Diana, eu sei. Mas também mudei muito nesse meio tempo – descobri o meu lado ator- olha, não nos encontramos por acaso. O acaso não existe – tinha ouvido isso de um cliente da India.

-Nossa, você mudou mesmo. Odiava essas frases feitas.
- Pra você ver. Por isso, quando te vi, bem... (interlúdio) tive a certeza de que tudo poderia ser diferente – me aproximei e segurei seus braços.
- Não, não, não. Eu não poderia dividir meus desejos com vocês dois – que dois, pensei, do que ela estava falando? A coisa havia se complicado. Ela era casada? Claro, que imbecil, é óbvio que ela era casada.
- Mas, mas... eu quero só você! – pelo espelho podia notar minha expressão de amor perfeito. Tinha certeza de que em breve estaríamos na cama.
- Eu sabia que você ia voltar à mesma tecla. Você sempre volta. Mas dessa vez vai ser diferente eu...eu... já liguei.
- Ligou? E daí que você ligou? – pra quem será que ela ligou?

A campainha tocou naquele instante. O acaso não existe, mesmo. Bati o recorde de pensamentos por segundo. O marido? A minha mulher? mas, eu não sou casado, ou sou? E agora não dava pra voltar e dizer que ela havia me confundido com outra pessoa. Ela foi abrir a porta, e, antes de abrir, virou-se.

- Eu só não quero escândalo – de que tipo? Ai meu Deus!
- Eu me posicionei, fiz uma pose rebelde. Se fosse a minha "mulher", diria que não queria mais nada, que Diana era o único amor da minha vida. Mas, para minha surpresa, entrou um cara. Parecia alemão. Os dois metros e tanto eram preenchidos com uma mistura de estivador e lutador de vale-tudo. Ele afastou Diana e se dirigiu a mim.
- O QUE É QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? – acho que o prédio todo ouviu.
- Nã...nãaa, nããão é nada disso que, que você está pensando – essa frase está no inconsciente coletivo masculino, e é incontrolável.
- EU VOU TE MATAR!- existem centenas de interpretações para essa frase. No entanto, ao ver aquele monstro vindo em minha direção, senti que o negócio era sério. Eu tentei correr pelo apartamento, mas ele me pegou em dois segundos e começou a me enforcar. Posso garantir que não é uma coisa agradável.
- Eu vou te matar Viana, te mataar!!!!!– esse era o meu nome? Viana?. Eu tinha que dizer alguma coisa.
- Calma, calma! eu não quero nada com a tua mulher, isso tudo é um engano!
- Minha...mulher???– acho que disse alguma palavra mágica. O cara me soltou e olhou espantado, Diana idem - Diana, esse aqui não é o Viana. Olha só, não tem a verruga no nariz. Caramba, desculpa, desculpa, fofo... mas, afinal, quem é você? – Salvo por uma verruga.
Foi difícil explicar que eu só queria me dar bem com aquela loira fabulosa, e mais difícil ainda saber que o tal Viana, que não era eu, era bissexual, casado com o alemão - que se chamava Rufo -, e também gostava de Diana, de quem era cabelereiro. Quando os dois me chamaram para uma esticada na noite eu recusei e me mandei pra casa.

Estava entrando em meu edifício quando reparei uma morena de parar o trânsito. Paramos juntos. Estávamos esperando o elevador. Ela olhou e sorriu. Não pensei duas vezes e falei:
- Tá olhando o quê? – resolvi subir pela escada. Nunca se sabe, nunca se sabe.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

WE ALL STAND TOGHETER... porque ninguém tem amigos tão marcantes quanto os que encontramos na adolescência

Os anos passam, as melhores amizades não. Por isso, mais uma vez a galera do vôlei de 1982 resolveu se reunir. Na verdade, Marcelo, uma espécie de espírito dos verões passados, resolveu chamar todo mundo. Uma lenda diz que se essa reunião não acontecer de tempos em tempos, Marcelo desaparecerá do inconsciente coletivo e os anos de SUDERJ não serão lembrados por ninguém.
O local escolhido foi o bar CAÇADOR, na Tijuca. O ex-levantador Jorge olhou o bar, meio cabreiro, não acreditava que o pessoal apareceria. Logo percebeu um velho, cabelos grisalhos e olhos vagamente azuis, o observando. Depois o velho sorriu. Jorge já estava pensando em perguntar o que aquela figura estava olhando. Aí, percebeu que se tratava de Edmundo. Sim, uma das peças-chave do time campeão de 1982/83. Pouco sobrou do galã que arrasava corações. Agora Ed parecia uma espécie de Miguel Falabella descontextualizado.
Aos poucos as figuras foram surgindo da aurora dos tempos. Marcos, outro levantador célebre, chegou alegre e rotundo. Tornou-se um professor semi-obeso e manteve o tom crítico e simpático de outrora; Marcelo, o espírito que anda, chegou alegre e emocionado, claro; Édio, que nos anos de SUDERJ fazia caminhadas ecológicas para ‘enturmar’ as novas meninas da turma, veio com a esposa, que não sabia de seu passado e por isso ainda o ama muito; Tarciso, que pesava 27 quilos no vôlei, mudou muito e agora tem 127. De fato, virou um clone pesado de Zeca Pagodinho. O humor continou intacto; Acácio (cujo nome de batismo é Marcos) chegou cheio de gás e energéticos. Alguem perguntou se ele havia parado de tomar bomba, e ele respondeu: "Parei sim. Tem uns 5 minutos!". Acácio era o brincalhão de sempre, por isso mesmo se tornou uma caricatura, abandonanado de vez a forma humana. Ah, e pra não dizer que não falei das mulheres. Beth representou as meninas. Ela continua usando receitas de formol e botox e pouco muda.
Pra provar que nada mudou, Marcelo lembrou a vez em que Acacio e Edmundo nadaram pelados na piscina do Julio Delamare (esse episódio é um ritual e deve ser lembrado em todos os encontros). Depois de tanto tempo, como os fatos não mudam, as pessoas tentam lembrá-los de outra forma. Assim, continuam engraçados.
Entretanto, algo começa a preocupar. Marcelo trouxe fotos antigas, só que a maioria não conseguiu enxergá-las sem óculos, e pior... Edmundo está com Alzhaimer. Ele olhava as pessoas e não reconhecia ninguém. Não reconheceu nem ele mesmo "Ih... esse cara aqui parece alguem que eu conheço... estranho!" tsc tsc, Triste isso. Édio revelou que tentou vários implantes, mas a calvície ganhou a parada, e como seus cabelos agora só crecem para os lados ele pensa em imitar o BOZO, um velho personagem infantil, e animar festas. O papo, que antes era sobre partidas empolgantes, garotas sensacionais virou outra coisa. Agora, cada um conta que remédio está tomando; falam dos filhos (que já são mais velhos do que os pais no tempo de SUDERJ) etc.
Um momento perfeito foi o brinde ao eterno Vitor, que está jogando numa quadra lá na cobertura.
Mas, nem tudo está perdido, pois o brilho no olhar continua o mesmo em cada um deles. Marcelo, através de controle mental, fez com que todos se sentissem felizes, ainda que não soubessem ao certo o que faziam ali.
Lá pelas tantas, surgiram as inevitáveis idéias para um encontro maior na casa de alguém. Sugestões ébrias para cá e para lá, a mais interessante parecia ser a de Marcelo, que convidou todos para sua casa em Angra.
Enquanto tratavam da lista de apetrechos necessários, Marcelo foi explicando como era a casa. Não era grande, nem luxuosa. Na verdade, era simples, e bem apertada. Não ficava de frente para a praia. Mas ficava a apenas uma hora de lá. Não era no centro de Angra, e quem precisava de tumulto? O fato de não ter luz chegava a ser romântico. Não tinha água quente. Aliás, nem água tinha. Mas havia um poço. Os ânimos só arrefeceram quando Marcelo falou que o lugar era bem calmo, a não ser por uma onça, que de vez em quando rondava a casa. Bem, Angra ficaria para uma outra ocasião.
De certo, fica a sensação de que existe um ‘que’ de eternidade envolvendo essas pessoas especiais, os grandes amigos que tiveram a sorte (ou seria Destino) de se encontrarem em um lugar e tempo especiais. Mudaram as estações e nada mudou.
Quem disse que o ‘pra sempre’ sempre acaba?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

40



Beatles, Lua e Internet. Em comum, chegam à casa dos 40 anos. No distante, e cada vez mais emblemático, ano de 1969 coisas aconteciam com alguma explicação. Na época, o mundo ainda era grande pra caramba, muita coisa que aocntecia no primeiro mundo demorava meses para aportar aqui.
Enquanto um sonho acabava, outros entravam em cena, e nada do que foi seria de novo do jeito que já foi um dia. Em Abbey Road, 4 caras atravessavam uma rua em direção à memória, à eternidade. Era a última caminhada de um grupo que foi o centro das atenções naqueles idolatrados anos 60, que começaram com jaquetas de couro, calças apertadas, botas e muito gel nos cabelos e terminavam com a utopia hippie de paz e amor, baseada em natureza, drogas e sexo. Depois de sacudir o mundo com suas músicas simples e muita ironia, os Beatles buscavam novos espaços. Apesar do talento, separados eles foram apenas John, Paul, George e Ringo.
De cabo Canaveral partia a Apollo 11. O homem chegava à lua (?!). Se foram, ao pisar em solo lunar, Neil Armstrong deu um gigantesco passo na aventura humana. Ao mesmo tempo, percebeu toda a insignificância de nosso planeta em relação ao universo. Os papas da Idade Média optariam pelo suicídio naquele instante. Por aqui, milhões acompanhavam cada detalhe: as sombras difusas, apesar de haver apenas uma fonte de luz – o sol; a bandeira americana tremulando, apesar de não haver como uma bandeira tremular naquele lugar; a pegada do astronauta, apesar da falta de gravidade, que tornaria a tal pegada algo bem difícil. E na época ninguem perguntou quem segurava a câmera que filmou Armstrong pisando na lua. Se ele foi o primeiro humano a pisar na lua, o câmera era um alienígena... mistério.
Também na casa dos quarenta está a internet. Sim, ela que permite que você leia esse blog, que possibilita encurtar o mundo todo e se comunicar com quem quisermos na hora que bem entendermos. A internet, um brinquedinho de guerra que se tornou a melhor extensão de nossas pretensões. Com seu jeito intimidador e ao mesmo tempo hipnotizante, ela tem o melhor e o pior do ser humano no mesmo lugar. Na internet se ama, marcam-se encontros e massacres, cria-se mundos e discute-se absolutamente tudo, sem chegar a alguam conclusão satisfatória.
Se o mundo parecia veloz, agora entrou na velocidade do pensamento. E o mais interessante é que a evolução tecnológica é tão avassaladora que é capaz de modificar o mundo de uma maneira indelével, ainda que muitos finjam não ver.
Na internet, com seus recursos infinitos, todas as tribos são iguais (tá, são parecidas... ok, se toleram), desde que saibam como navegar. E olha que o poeta certamente nunca imaginou um giga sequer ao dizer que: Navegar é preciso, viver não é preciso.
De certa forma, 1969 foi o primeiro ano do resto de nossas vidas.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

De Todas as Maneiras

O mundo é tão grande, tão cheio de tudo e de todas as coisas. Coisas Pequenas, galáxias distantes que cabem na palma da mão ou no fundo do olhar de um alguém. Coisas grandes, como um sonho que escapa, que se vai e jamais fica longe.
Tão intrigante e belo, tão cheio de contradições, esse mundo de meu Deus, de seu Deus e do Deus de todo mundo (até de quem não O tem). E quando tudo acaba, nada se perde, tudo se transforma, tudo se cria, e nunca é da forma que se pensa, que se espera... mas É.
O passado se parece, dessa vez, menos com o que foi e a cada dia fica mais perto do que só existe dentro de nós. Ainda assim, parece de todo perfeito e talvez seja preciso, pois o futuro vem e vai em ondas que não percebemos até que seja tarde demais, e já foi, e está aqui, e vem, de novo.
Ninguém é mais o mesmo, nunca foi, nem por um segundo, que pelo mundo desfaz dias, mitos, ritos. Gotas de chuva inundam o rio que transforma todo querer. E o que era eu, não mais está aqui, é como uma certeza que não faz mais sentido, que aproveitou sua chance e tempo, que tinha o que fazer e agora nem tem como ser. Quem inventou o amor?
Todos olham a mesma coisa e ela é diferente, ouvem a mesma canção e viajam por tempos e lugares que de tão particulares, de tão indivizíveis, são perceptíveis àqueles que se permitem apenas por não perceberem que toda eternidade está guardada em um segundo.
E dizer ‘te amo’ é tão simples quanto é difícil amar. Que meu amor, então, seja algo simples, mas que seja perfeito, que faça sombra, guarde segredos, universos, e não morra nem se perca em outra pessoa, senão, meu já não é, mas de todo mundo. E ser igual é o que todo diferente é.
Quem inventou essa noite fria, de vento forte, de raios que iluminam mares e céus profundos? Quem inventou essa tarde de brisa leve, que parece dizer ‘tá tudo bem’? Quem inventou essa manhã de céu azul, cheia de cores e grandes esperanças, a cantar ‘o mundo começa agora...’?
Sou eu, sou você, sou todo mundo.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

PRETÉRITO PERFEITO



Na sala, Maria, a empregada, e Maria Aparecida, a patroa, assistiam à novela das seis. Paulinho brincava no chão com seus bonecos japoneses, enquanto Rodolfo lia a folha de São Paulo. Ninguém ali notou quando o vô Asdrúbal passou do banheiro para o seu quarto.
Não sabia bem por que, mas o octogenário acordara diferente, como se procurasse algo importante demais, só que que não sabia o que era. Durante o dia, havia conversado com os amigos da praça. Até ganhara uma partida de damas, algo que há semanas não acontecia. Ouvira o Ribamar falar mal da família, a dona Maricota mais uma vez acusar o genro de estar olhando meio estranho para ela, apesar do rapaz ter uns 30 anos, ser estrábico, e ela ter 92. Nem mesmo a corrida que um pitbull deu no Aparício, que na fuga esqueceu a bengala e a artrite, foi capaz de afastar aquela sensação de que algo não estava muito certo.
Ao entrar em seu quarto, Asdrúbal foi de imediato até o armário. Pegou uma pequena caixa que, não lembrando por que, escondera atrás de perfumes e outros papéis. Sentou na cama e calmamente soprou a poeira que tomara posse da caixa de papelão. Até o desenho, pássaros e árvores do antigo Passeio Público, apresentavam a indelével marca do tempo. Asdrúbal pegou um saco plástico que armazenava seus pertences e desatou a fita.
Nossa!, espantou-se.

Papéis antigos, medalhas de jogos estudantis, cartas de amor que nunca tivera a coragem de enviar, um mundo perdido se mostrava ao velho paraquedista. Pegou um cartão que Carminha lhe mandara, dizendo o quanto a noite no Forte Copacabana havia sido especial. De fato, a partir dali Asdrúbal formaria sua família, e a doce Carminha traria à luz Maria Aparecida. Sim, depois viriam Rodolfo e Paulinho, mas e daí? pensou Asdrúbal, ninguém é perfeito. Olhou demoradamente para uma medalha e foi capaz de lembrar do jogo de vôlei contra a turma do Colégio Santo Inácio, afinal ele era o capitão. Riu desconcertado quando de assalto lhe veio à mente um momento de euforia, logo após a partida, quando saiu correndo em volta da quadra e derrubou a cadeira do juiz, que fraturou três costelas e engoliu o apito. Bons tempos, bons tempos, disse para si.

Um breve suspiro fez o velho militar pensar no quanto tudo havia mudado, e quão rápidas se fizeram as estações. Era mais do que uma sensação de nostalgia indômita, mais do que uma saudade, sentimento que não se consegue explicar. Não, era como uma sensação de roubo. Sim, pensou, era isso, como se houvessem roubado seu mundo, suas implicâncias, seus momentos de plenitude. Espalhou todo o conteúdo do saco plástico na cama, e ficou contente da intrometida da Maria, a empregada, não ter aparecido para perguntar se já podia esquentar o mingau.
Com os dedos, mergulhou no infinito de possibilidades e logo deparou com um álbum de fotos.
Estão todos aqui.
E estavam mesmo. Toda a turma do Colégio Militar, os páraquedistas, o Bráulio, Vasconcelos, Antônio Idalgo, Idelfonso e Venceslau. Havia momentos especiais, como condecorações no Palácio do Catete, mas também flagrantes de pura audácia. A subida no pico da Bandeira foi marcante, e lá estava o Venceslau, sempre sorridente. Aliás, pensou Asdrúbal, o rapaz era um tanto estranho, pois nas empreitadas na mata sempre dormia com um urso branco de pelúcia, dizia que era pra dar sorte. E só agora Asdrúbal notara que em todas as fotos o Venceslau estava olhando de soslaio para o Antônio Idalgo.

A Carminha que estava ali, tão próxima, era pouco mais do que uma menina. Não tinha uma ruga sequer, nem dor de cabeça, nem tinha partido. De repente, Asdrúbal percebeu o que o incomodava. Não era o fato de que hoje em dia já não existe ninguém chamado Idelfonso, ou Venceslau, ou Asdrúbal. O que o incomodava era o tempo.
Esse ser, que não tem forma ou cheiro, que a Física vê como uma quarta dimensão, havia levado tudo que em algum instante fez diferença para Asdrúbal. Ora, que fim levou seu Dodge Dart (que o Paulinho pensa que é raça de cachorro)? E o coronel Apolônio, que lhe ensinou tanto sobre a vida? seus pais, que nunca duvidaram do sucesso do filho, e sempre bancavam viagens de férias no exterior? Onde estavam seus coturnos, sua roupa camuflada? Será que Carminha aceitaria um pedido de namoro? Lágrimas saltaram dos olhos da velha águia, que ficou ainda mais embaraçado quando olhou para seus pertences largados sobre a cama. Ele pegou as fotos de novo e se deu conta de que até as cores haviam desaparecido. Pior, era como se nunca tivessem existido, como se tudo que viveu fosse em tons de cinza e sépia, que é a cor mais distante.
Cinco minutos depois, a família ainda permanece na sala. Só Maria, a empregada, foi para a cozinha esquentar o mingau de seu Asdrúbal. Então, Paulinho ouviu o som de uma chave trancando a porta do quarto. Olhou para o alto da escada e observou o avô, todo impávido. Ele fez um gesto e pediu ao neto que não o denunciasse, não queria atrapalhar a leitura da Folha nem a novela das seis. Paulinho piscou o olho, concordando, enquanto Asdrúbal desapareceu no corredor. Um barulho chamou a atenção da dona da casa.

-Ué, quem saiu? – pergunta Maria.
-Foi o vô.- disse Paulinho.

-Ora, onde será que ele vai a essas horas?

-Não sei, mãe. Ele tá doente?

-Claro que não, menino. Por que você pergunta?

-É que ele estava estranho... todo cinza.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O TEATRO DOS VAMPIROS , ou "Someday we will die in your dreams, How I wish we were here with you now".





EXISTE beleza na dor? A questão pode ser retórica, mas quando Michael Jackson resolve partir definitivamente para Neverland, ela ressurge como nuvens pesadas em um horizonte cinza.
Alguns artistas fazem de seus tormentos obras de rara beleza, e assim acabam se perpetuando no imaginário popular, tornando-se algo maior, mais intenso e mais destrutivo do que poderíamos imaginar. O sucesso, a fama e a tragédia, vez por outra caminham juntos, de mãos dadas.
Nosso mundo emergencial traz explicita uma sentença: Gire as engrenagens, ou seja destroçado por elas. O showbussiness é uma dessas engrenagens, um dos elos fundamentais numa sociedade que se alimenta de ego, dinheiro e abstrações.
Janes Joplin, Jimi Hendrix, Brian Jones e Jim Morrisson, mortos aos 27 anos, tornaram-se exemplos de como as estrelas mais brilhantes se consomem rapidamente. Nesses casos, as drogas foram responsabilizadas pelos trágicos e prematuros desfechos. Mas, ao tomarmos conhecimento da vida desses músicos percebemos que as drogas eram o alívio, vistas como única alternativa para continuar a jornada. Ou interrompê-la.
Jim Morrisson definia o público como um vampiro insaciável, que sugava até a última gota de sangue de seus ‘ídolos’. É como se um artista qualquer desejasse muito fazer sucesso, ter fama, sexo a vontade, milhões na conta bancária e conseguisse exatamente isso. Mas, o preço a se pagar é caro.
Ian Curtis, morto em maio de 1980 aos 23 anos, era o vocalista da banda inlgesa Joy Division. Epilético, fazia de seu problema um motivo de arrebatamento dos fãs. Ele dançava de uma maneira desengonçada imitando, inconscientemente, os espamos da epilepsia. Certa vez, teve um ataque no palco, caindo em cima da bateria de maneira violenta. A platéia delirou.
Curt Cobain, aos 27 anos, em 1994, foi encontrado morto em seu apartamento. Em comum, todos os citados até aqui cometeram suicídio. Seja pela ingestão de drogas, alcool ou pelo estampido de um revolver, eles deram cabo da própria vida. Optaram por isso.
Elvis Presley e Michael Jackson não fogem à regra. A ingestão alucinada de medicamentos é uma das maneiras mais eficazes de suicídio. Elvis, em seus últimos anos, tranformara-se numa auto-paródia. Suas aparições públicas eram um espetáculo bizarro, e a cena dele distribuindo toalhinhas ensopadas de suor para senhoras alucinadas no Madson Square Garden é algo inesquecível. Michael, por sua vez, repetia os mesmos passos e gritinhos há vários anos, e pelo vídeo dos ensaios do que seria sua nova turnê nada mudaria.
Essas pessoas conquistaram o mundo, ou uma boa parcela dele. Subiram a montanha mais alta, de onde se pode ver crianças frágeis, adolescentes histéricos, adultos entediados e velhos saudosistas, todos gritando seus nomes, idolatrando-os. E, ao contemplar esse abismo perceberam que haviam criado e alimentado uma massa triste, perdida, insaciável, que precisa de refereciais, de deuses para adorar.
Artistas assim enriqueceram donos de gravadoras e fornecedores de drogas, em troca receberam o palco, a luz cegante da ribalta.
Esses jovens, e assim serão eternamente, morreram sozinhos em seus apartamentos, cheios de dor e melancolia. Suas biografias, ao mesmo tempo em que os humanizam, que tocam seus pés de barro, os tornam ainda mais rentáveis para a industria que os produziu. Um círculo vicioso.
Essa mesma indústria jamais admitirá que a morte era a única saída para cada um desses artistas, incapazes de conviver com o anonimato, de voltar à caverna, de serem normais. E quem é normal?
Nesse universo estranho, existe até bolsa de apostas sobre quem vai ser o próximo a ir embora. O nome escolhido é Amy Winhouse, afinal, ela tem tudo que é necessário para entrar no halll da eternidade: É jovem, talentosa demais e infinitamente triste.