quinta-feira, 12 de março de 2009

O CASO DA VÓ JUREMA






Era uma típica família classe média. Só não era mais típica porque a classe foi embora com a crise. Marcos, Marcia, o filho Julinho e a vó Jurema, mãe de Marcos, que morava com eles na espaçosa casa do Grajaú.
O chefe da casa não era chefe, Márcia ganhava mais e tomou conta do posto no último verão. Ele, professor de inglês, ela, advogada arrependida. Julinho fazia medicina, e vó Jurema, do alto de seus 90 anos, começava a regredir.
A tempestade começou depois que Marcos perdeu o emprego. Mais ou menos nesse período, vó Jurema passou a se trancar, sistematicamente, no banheiro de empregada. Ela se fechava e depois começava a gritar por socorro. No início, acontecia apenas de madrugada, mas, não tardou a evoluir. Na festa que Julinho fez para os amigos da escola ela ficou lá por cerca de três horas.
Marcos não conseguia dar aulas particulares, irritava-se com tudo, principalmente com alunos que não conseguiam pronunciar "thieves" direito. Márcia passou a chegar tarde em casa e ainda reclamava porque o jantar não estava pronto. Julinho só não reclamava porque o piercing que colocou na língua incomodava demais, e, além disso ele vivia nas raves. Aliás, nas últimas vezes em que parou para conversar com os pais percebeu que não tinha mais nada a dizer. Vó Jurema estava cada vez mais desligada e ia ao banheiro com frequência. Mas, sempre que abriam a porta para "salva-la"... ela estava rindo.
Marcos se preparou para o divórcio. Sabia que isso magoaria a esposa, com quem estava há quase dez anos. Sentou no sofá. Vó Jurema sentou na poltrona em frente. Ele disse que as coisas iam mudar muito a partir daquele dia, a avó riu e disse: "Heinn?". Márcia não demorou muito.
Antes que ele pudesse dar início ao capítulo final de seu relacionamento, Márcia pediu um minuto. Disse que o casamento estava acabado, ele disse, "eu sei!", e ela arrematou dizendo que há dois meses estava tendo relações com um cliente. Ele disse "Eu mato esse cretino!", ela disse, "É o Boca-suja, aquele traficante", ele retrucou, "é... não vale a pena brigar. Violência não leva a nada mesmo".
Marcia arrumou as malas com uma rapidez que deixou Marcos intrigado, o quanto ela fingira ao longo dos anos? Vó Jurema levantou. Ele se perguntou do que ela estava rindo, mas deixou pra lá. A porta da sala abriu e Marcos levou um susto ao ver um homem careca, com 90% do corpo coberto de tatuagens, entrando sem pedir licença. Resolveu encarar, ainda era o homem da casa, ou algo assim. "Ei, tá pensando que isso aqui é o quê? Tá pensando que vai entrando assim? Quem é você meu chapa?", perguntou, assumindo postura desafiadora. "Ih, pai, sou eu o Julinho, tá ligado?".
Pouco depois, Márcia passou pela sala carregando sua mala. Olhou para Julinho como se não o conhecesse mais, e disse que depois voltaria para pegar o resto das coisas. De repente, ouviram uma voz vinda do banheiro. O famoso pedido de socorro. Deram um sorriso, pelo momento em que o fato se repetia. E foram os três juntos libertar vó Jurema.
Abriram a porta do banheiro, mas não havia ninguém lá. Resolveram ficar juntos e procurar a fujona. Isso já faz mais de três anos. De vez em quando, ao verem televisão juntos, têm a impressão de ouvirem algo vindo do banheiro... algo como um sorriso matreiro.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

PARANÓIAS DE NOVA YORK EM 2025 - II

Acordei cansado. Sem vontade de levantar. Acho que é por causa do tempo. Também, essa nuvem cinza não passa. Fui até a cozinha, preparei o café sintético. Coloquei as luvas e peguei o jornal, levei até o identificador de armas químicas. Nada na tinta...nada no papel. Nada de novo no mundo. A Africa foi declarada, oficialmente, zona de experimentação, e os últimos testes com a B999 mostram que o ser humano realmente não resiste às moléculas de desintegração em massa. O problema é que a matéria-prima para os testes já se torna escassa. Esses jornalistas exageram. Se acabar, a gente pode experimentar nos brasileiros.

Às vezes sinto falta da televisão, mas, desde que revelaram que os terroristas haviam descoberto uma forma de hipnotismo suicida através das ondas e dos programas de auditório eu é que não vou me arriscar. Fiquei um tempo ouvindo o velho Bruce e sua "Born in the USA". Ele é demais... quer dizer, era. Não dá pra acreditar que jogaram um avião no palco, ainda não me acostumei. Só sobrou o Michael Jackson, mas, quem é que vai confiar num cara verde-metálico?
Bem, segui então para o meu trabalho. O carro não funciona direito desde o último pulso eletromagnético. Mas, acabou pegando. Pelo caminho, vi crianças brincando em um parque. Lembrei do tempo em que elas não usavam pele artificial, nem precisavam de roupas plásticas anti-tóxicas. Aliás, nem sei como elas conseguem correr com aqueles aparelhos de ar nas costas. Ah, reparei também numa senhora com uma sacola de compras. Parecia bem, apesar do exoesqueleto. Acho que a pior arma que usaram contra a gente foi a que acelerava a osteoporose. Num belo dia, fui brincar com um sobrinho, e quando o segurei pela cintura o moleque quebrou ao meio.

As câmeras de vigília são realmente fantásticas. Ninguém mais reclama de ser observado dentro e fora de casa. Claro que o toque de recolher e a Lei Marcial ajudam nessa calmaria. Chato foi acabar com o basquete e os outros esportes. Tudo por culpa daqueles terroristas idiotas e suas bactérias disseminadas pelo suor.

Quando chego à portaria do prédio percebo que ainda não me adaptei. Esse negócio de ficar mais de vinte minutos na descontaminação é horrível! Só que o pior é trabalhar com propaganda. As coisas estão difíceis, as pessoas vivem com tanto medo que pensam dez anos antes de comprar um novo produto. Se ao menos ainda tivéssemos o mercado europeu. Quer dizer, se ainda houvesse uma Europa.

O dia foi longo, até porque, os malditos chineses disseram que não vão aceitar um acordo de paz. E o nosso presidente ainda quer que fiquemos calmos. Disse, na última transmissão, que nada vai abalar a confiança do povo americano no seu governo, e suas decisões acertadas. Particularmente, não acho que foi uma boa idéia derrubar a Muralha, e, além do mais, é fácil pedir calma ao povo falando de uma confortável estação lunar.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

VALORES


VALORES


Ela chegou calada, como de costume. Ele estava lendo um livro, como de costume. Ela sentou ao seu lado no sofá, como de costume.

- Precisamos conversar.
- Conversar...
- Olha, eu sei que a gente não está muito bem. Que as coisas esfriaram nos últimos meses. Acho que faz parte, que as coisas são assim mesmo.
- Assim mesmo.
- Bem, eu pensei muito, muito. Afinal, bem, estamos juntos há vinte anos.
- Vinte anos...
- Pois é, acho que fizemos nossa história, tivemos momentos inesquecíveis. Lembra de 94, em -Paris? Ah, acho que nunca me senti tão feliz.
- Feliz.
- É, isso!
- Isso.
- No início era até legal, mas não é mais. Eu preciso me encontrar, e decidi que...que...não vai ser com você.
- E?
- Como, "e"? estou dizendo que estou encerrando nosso relacionamento. Sei que é um choque para você, mas não dá mais. Por favor, não insista. Eu cresci muito e você também, somos dois adultos e não precisamos agir como trogloditas.
- Trogloditas.
- É o F I M, entendeu? Chega, não agüento mais suas manias perfeccionistas, seu jeito de desdenhar das minhas amizades, sua esquizofrenia debilóide de não dar atenção e ainda ficar repetindo sempre as últimas palavras das pessoas. Acho que você não está me levando a sério, mas eu te digo, é bom você se acostumar em nunca mais me ver. Quer fazer o favor de olhar pra mim e largar esse livro idiota???!
- É do Gabriel Garcia Marquez.
- E daí? É um idiota, como você é um idiota. Todos os homens são idiotas! Quer saber. Eu tenho outro.
- Outro idiota?
- É grrrr!!! muito melhor que você! É o Arnaldo. Isso mesmo, seu advogado. Pronto, falei.
- Tudo bem.
- Tudo bem? Eu sabia que você era frio, mas isso é ridículo! - ela levanta furiosa e faz a mala. Põe o seu melhor vestido, enxuga as lágrimas e volta à sala. Ele ainda está lendo.- Acho que isso é um adeus.
- Eu queria te pedir uma coisa.
- Não adianta você pedir pra eu ficar. Acabou, entendeu? Acabou!
- Tá, tá, eu sei... faz um favor? Desliga o fogo antes de sair, os meus ovos cozidos já devem estar prontos.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

VAI COMEÇAR


VAI COMEÇAR...




E assim, com esse tempo estranho, 2008 se aproxima do fim. Como sempre, temos a impressão de que foi um tempo que passou voando, nosso cérebro se conforta com essa ‘certeza’.
De certo, podemos dizer que todos, sem exceção, estamos mais velhos, e que as coisas não saíram exatamente do jeito que planejamos. Mas, com certeza, tivemos ganhos, e se observamos bem, vamos entender isso, mesmo naqueles episódios que pareceram não servir para grande coisa.
Podemos aproveitar esse fim de festa, porque todo ano deve ser uma celebração à vida, e fazer uma faxina, a casa fica bem melhor assim.


Vamos deixar em 2008 tudo que nos deixou tristes, aquela briga com um parente ou um amigo, aqueles dias cinzas em que nós mesmos parecemos cinza. Vamos jogar pela janela os momentos de indecisão que nos custaram caro, que eles se percam em meio aos papéis picados que viram chuva no dia 31, que representam exatamente isso, um adeus. Vamos deixar pra trás os ressentimentos por coisas pequenas, pois muitas vezes o que incomoda no outro é exatamente algo que temos em nós e não percebemos.

Que tal arrumar a bagagem, afinal, 2008 é um lugar que vai ficar pra trás muito em breve. Coloque na mala as novas amizades, aquela pessoa que chegou de repente e fez você perder o rumo. É, esse alguém vai te dar dor de cabeça, mas isso vai ser bom demais! Leve também tudo que aprendeu. Sim, claro que você aprendeu com tudo que deu errado, mesmo que ainda não lhe pareça assim. É pra isso que servem essas coisas. Planos? Hum... leve apenas o essencial, aquilo em que você aposta. O resto vai aparecendo pelo caminho, quando você menos esperar... é aí que está a magia da coisa. Ah, não esqueça de levar algo muito importante... a fé, pois ela não costuma falhar. Religião? Siga a sua, pois é lá que se sente bem. DEUS é um só. Ah, você não acredita em Deus? Calma... um dia isso muda.

Se há algo em que devemos investir em 2009 é na paciência, na calma. Lá fora há tanques nas ruas, bombas, medo de uma recessão mundial e uma série de outros absurdos que nos deixam perplexos. Mas, as folhas só caem no outono, e o desespero não traz soluções, apenas estresse e seus parentes próximos, como a depressão. Portanto, tenha calma, ao invés do ‘olho por olho’, que como Gandhi disse, geraria uma terra de cegos, respire fundo.


Ouça seu coração, ele tem o compasso perfeito.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

ASSIM É... SE EU PAREÇO


É melhor deixar que de nós falem os outros. Digam eles o que vai em seus corações, que nos vejam como espelhos e reproduzam seus defeitos e virtudes de uma maneira desvairada. Que falem tudo que os atemoriza, que os envergonha, que vejam em nós algo que reconhecem de algum lugar, ainda que lhes pareça inédito ou louco. Que os outros vejam em nós o que mais lhes incomoda, algo que por estar dentro deles não se permitem conhecer.


Deixe que falem de amor e amizade, de sentimentos nobres, caros, raros, e que somos importantes em suas vidas, em algum segundo de algum momento que chega e passa. Deixa aos outros a tarefa de definir e rotular, a nós cabe o sorriso infantil, por não nos vermos nesses personagens, por sermos todos... na mesma intensidade de jamais ter sido algum.


Se eu fosse, seria então quem voce nunca viu, quem voce nunca entendeu, quem voce mais amou mesmo sem saber por quê. Quem andou com você numa praia distante e viu um sol se por, dando lugar às estrelas que incendiaram a noite e afugentaram a solidão.


Mas não... eu não sou, apenas pareço.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O ESTUPENDO






Estava decidido: Ademar entraria no mundo do espetáculo. A carreira de arquiteto não deu certo, e não foi porque a casa caiu, isso podia acontecer com qualquer um. Na hora de pagar, todos gostaram do isopor, pensava. Depois disso, resolveu inovar e decidiu criar o projeto do Aviãozinho Zuuuum. Um brinquedo que girava velozmente, preso a uma haste. Um dia a haste quebrou. Sejamos francos, Ademar não teve culpa daquele senhor de 90 anos ter inaugurado a atração. E a polícia, a bem da verdade, até hoje não confirmou se o cidadão morreu por causa do vôo ou porque o aviãozinho se espatifou na montanha russa.

Queria ser famoso, tinha que fazer algo impactante. Depois de estudar a vida e as peripécias de Holdini, Ademar, o Estupendo, como passou a se chamar, viu que atuar nas ruas seria suficiente para ganhar adeptos.

Virou escapista, mestre em fugas impossíveis. Com a ajuda de Guilherme, um sobrinho recém chegado do Amazonas, foi para o Largo da Carioca, no Rio de Janeiro, e anunciou seu número. Acorrentado pelo partner (com força excessiva), fingiu que nada sentia. Isso, até o momento em que Gui colocou o saco plástico em sua cabeça e apertou o barbante. O Estupendo só conseguia emitir sons guturais, o público ria e achava que fazia parte do espetáculo. Gui, forte como um touro, pegou o tio, que esperneava, e lançou-o dentro do tanque.

A idéia era que o Estupendo escapasse em um minuto. Sem conseguir respirar direito, Ademar procurou se concentrar em pegar a chave das algemas no fundo do tanque. Deveria estar lá, mas Gui não foi avisado que tudo era um truque. Pegou a chave e guardou. A platéia estava hipnotizada. Aquela figura se debatendo como louco e jogando o corpo contra as paredes de vidro era uma imagem chocante.

Guilherme tentou ajudar e fez todo o possível para segurar o tanque. Só parou quando notou a coloração azulada do tio, e alguém informou que já se passara mais de dez minutos. Ademar ficou um mês se recuperando, mas escapou.
O Estupendo mudou de estilo, malhou o corpo, tomou anabolizantes e se transformou numa espécie de Silvester Stalonge. Fez contatos com a imprensa. Naquele domingo, várias equipes de reportagem estavam no terreno que Ademar alugou. Nas entrevistas, mostrou segurança e sorriu para as câmeras com naturalidade comum as grandes estrelas. Sabia que a partir dali a vida seria diferente. O intrépido aventureiro do impossível foi acorrentado a dois caminhões. A expectativa era a de que ele conseguisse puxar os dios veículos, aproximando-os. Ademar olhou para os lados, para frente, para a cãmera. Após a concentração, começou a forçar as correntes com o máximo de força possível. por alguma razão, incompreensível para ele, os caminhões não se moviam... nem um centímetro. Ele riu, desconcertado, suando em bicas. As vaias não demoraram muito, e as gargalhadas tornavam tudo ainda mais patético.
Guilherme não queria errar de novo, mas, ao ver o tio a ponto de ser linchado, não teve dúvidas: correu em direção a um dos caminhões e entrou. Ademar já estava sentindo o cansaço, então olhou para um dos veículos e, estarrecido, viu o sobrinho fazendo um sinal de OK. Tentou gritar, mas havia muito barulho. Gui não teve dúvidas: ligou o motor, engatou, sem querer, a marcha-ré, e pisou fundo.
Ademar se tornou uma atração internacional, apareceu até na CNN. Era a primeira vez que a TV mostrava uma tragédia com tantos detalhes.

PARANÓIAS DE NOVA YORK EM 2025 - I




- Cadê a máscara?

- Tá na segunda gaveta da cômoda.

- E o colete? Por que você não deixa tudo à mão?

- O que você chama de "à mão"? estava tudo espalhado. O colete estava em cima do oxigenador de ambiente e a capa antiradiativa quase explode a máquina de lavar.

- Tá bom, tá bom. Desculpa. Droga, cadê a bota, querida?

- Ih, eu esqueci lá na varanda.

- Francamente, linda, da última vez tive que colocá-las por 2 horas no box de descontaminação.

– Ele vai até à varanda – Ihh, já era, desintegrou.

- Desculpa. Mas também, eu tenho que fazer tudo.

- Cadê a empregada que você contratou?

- A Maria? Ela explodiu na casa do Joseph. Mas acho que foi suicídio.

- Que suicídio o quê, era uma missão, eu sempre disse que ela era mulher-bomba.Tudo bem, deixa pra lá. Você sabe onde está aquele par de mocassim com sola de mercúrio.

- Debaixo da cama.

- Ah, achei.

- Querido, é melhor você se apressar, as crianças saem daqui a dez minutos.

- Eu sei, eu sei!. Qual é a rota de fuga que a professora vai usar hoje?
A 23b.

- De novo? Mas não foi essa ontem?

-Não, foi a 21c.

-Humm, deixa eu ver... essa de hoje é a que fica no subterrâneo do McDonalds?
- Isso.
- AHHHHHHHHHHHHH, SOCORRRO QUERIDA!!!!- Ela corre e encontra o marido olhando apavorado para a mão direita. Ele gesticula, dá voltas em torno da mesa da copa e segura a mão coberta pelo pó branco como se não fizesse mais parte de seu corpo. - Afaste-se querida, afaste-se! É antraz, eu vou morrer! arrrrghhhhhh(lágrimas)
- Dá ‘pra’ parar com o escândalo. Isso é sal. É que deixei cair um pouco enquanto temperava o peixe.- O homem tenta se recompor do vexame. Ajeita seu macacão de 30kgs e dá um sorriso amarelado.

- He, he, he, acho que estou meio estressado. Bem, já estou pronto.- Dá um beijo na mulher e, depois de ficar cinco minutos na ante-sala de descontaminação, sai.

- Cuidado com as minas na 42th, o Harry perdeu um braço lá, ontem.

O homem, já na rua, responde:

- Não esquenta, querida. Eu conheço todos os explosivos dessa ru...BUMMM!!!!!